A demissão do ‘orgulhoso pária’

Ernesto Araújo será devolvido a seu merecido anonimato, lugar onde seus delírios não prejudicam o País

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 03h00

Ernesto Araújo finalmente deixará de ser ministro das Relações Exteriores. Depois de passar mais de dois anos contribuindo decisivamente para arruinar a imagem do Brasil no exterior, Araújo entregou o cargo em meio a uma enorme pressão de parlamentares governistas, especialmente no Senado.

O motivo imediato da hostilidade a Araújo foi sua atuação danosa aos interesses do País em relação aos esforços para a obtenção de vacinas contra a covid-19, sobretudo suas agressões à China, país que fornece os insumos para a fabricação dos imunizantes produzidos no Brasil.

Seu afastamento foi considerado indispensável pelos senadores envolvidos na reformulação completa da política de combate à pandemia. Afinal, não havia a menor possibilidade de suavizar as relações com a China enquanto o Itamaraty fosse chefiado por um ministro que insinuou reiteradas vezes que aquele país fabricou o coronavírus, chamado por ele de “comunavírus”, para prejudicar as democracias e disseminar o comunismo.

Vendo-se encurralado, Ernesto Araújo fez o que os extremistas fazem melhor: partiu para o ataque com ilações maldosas. Foi às redes sociais para sugerir que os senadores – citando especialmente Kátia Abreu (PP-TO), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado – o estavam pressionando não para obter vacinas, mas por interesse em favorecer a China no leilão da tecnologia 5G. Ao agir assim, Araújo selou sua sorte – a senadora Kátia Abreu o chamou de “marginal” –, mas, ao mesmo tempo, deu à militância bolsonarista um discurso sob medida para atribuir sua queda ao comunismo chinês e à suposta pusilanimidade de políticos interesseiros.

Mas que ninguém se engane: tudo o que Ernesto Araújo fez ao longo de sua passagem pelo Ministério das Relações Exteriores, até o último minuto, seguiu rigorosamente as diretrizes do presidente Jair Bolsonaro.

“O presidente Bolsonaro tem confiança no meu trabalho. Meu trabalho não é meu, é a implementação de uma agenda de política externa que o presidente traz desde a campanha”, disse o então chanceler em entrevista recente ao Estado. E ele completou, para não deixar dúvidas: “Tenho respaldo (de Bolsonaro) porque desde o começo sempre propus ao presidente maneiras de implementar as ideias dele. (...) O presidente me nomeou por causa do meu compromisso de fazer a política que ele queria, implementar as coisas que ele quer, a visão de mundo”.

Desse modo, pode-se supor que Bolsonaro aceitou se desfazer de seu lealíssimo chanceler muito a contragosto, e somente quando ficou claro que era sua própria sobrevivência política que estava em jogo.

Tem sido assim desde que o Centrão se assenhoreou do governo, tutelando o presidente para fazê-lo parar de sabotar o combate à pandemia. A troca no Ministério da Saúde, que obrigou Bolsonaro a se livrar de outro serviçal fiel, o intendente Eduardo Pazuello, foi apenas o começo.

Diante disso, é possível – embora, em se tratando de Bolsonaro, não exatamente provável – que o próximo chanceler seja escolhido para restabelecer um mínimo de racionalidade na chefia do Itamaraty. Não será uma tarefa fácil: o bolsonarismo planeja desde sempre transformar a Chancelaria em uma cidadela de lunáticos reacionários, sob inspiração de um obscuro ex-astrólogo que mora nos Estados Unidos.

Nessa toada, Araújo entrou para a história como o chanceler que disse ter orgulho da condição de “pária internacional” que o País assumiu sob o comando de Jair Bolsonaro; que chamou de “cidadãos de bem” os golpistas que invadiram o Capitólio para tentar reverter na marra a derrota de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos; e que ajudou a azedar as relações não só com a China, mas com diversos vizinhos sul-americanos e com países europeus. Uma folha de serviços e tanto, para quem foi nomeado chanceler sem nem sequer ter sido embaixador.

Felizmente, ao que parece, Ernesto Araújo será devolvido a seu merecido anonimato, lugar onde seus delírios não prejudicam o País. Sem ele, o governo de Bolsonaro tende a ficar um pouco menos bolsonarista – o que, a esta altura, é um alento.

P.S.: Este editorial já estava na página quando chegou a notícia de que o general Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, pedira demissão do cargo.

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