A democracia une profundamente o País

Manifesto reúne adversários históricos, como Fiesp, CUT e UNE. O País supera divergências e consegue dialogar quando há algo valioso em comum a defender

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2022 | 03h00

Jair Bolsonaro pode tentar qualificar de partidário o manifesto Em defesa da democracia e da Justiça, da mesma forma como já havia feito com a Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito. Os fatos, no entanto, o desmentem de uma forma constrangedora: inimigos históricos, que sempre tiveram e continuam a ter posições ideológicas opostas, assinaram juntos o novo manifesto em defesa das eleições e do Judiciário. Ao lado da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), estão entidades como Central Única dos Trabalhadores (CUT), União Nacional dos Estudantes (UNE), União Geral dos Trabalhadores (UGT) e Central Geral dos Trabalhadores (CGT). Entre os signatários do manifesto, deve-se destacar também a presença de entidades históricas, de longuíssima tradição de apartidarismo político, como o Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp), cuja fundação antecede a própria proclamação da República.

Essa miríade de entidades juntas revela que, mesmo num ambiente político marcado pela polarização, a defesa da democracia é um consenso civilizatório inegociável. Com sua campanha golpista, Jair Bolsonaro fez despertar uma impressionante reação, plural e apartidária, em defesa do regime democrático. Ao contrário do que o discurso bolsonarista apregoa, a defesa da democracia não é uma causa partidária. Ela une profundamente o País.

A presença da Fiesp, Febraban, CUT, UNE e muitas outras entidades no mesmo manifesto revela também outro aspecto fundamental da democracia brasileira. Há muitas diferenças e embates no dia a dia da política. Basta perguntar como cada uma dessas entidades vê as reformas previdenciária e trabalhista. No entanto, mesmo com todas as discordâncias, o diálogo é possível. Na hora de defender a democracia, as entidades foram capazes de agregar esforços, sem titubear, em prol de um mesmo ideal.

O manifesto Em defesa da democracia e da Justiça também explicita uma dimensão importante da campanha de Jair Bolsonaro contra o regime democrático. O presidente da República ataca a democracia brasileira não apenas quando coloca em dúvida, sem nenhuma prova, a lisura do processo eleitoral, mas também quando ameaça e confronta o Poder Judiciário.

De forma corajosa, o manifesto destaca “o papel do Judiciário brasileiro, em especial do Supremo Tribunal Federal (STF), guardião último da Constituição, e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que tem conduzido com plena segurança, eficiência e integridade nossas eleições respeitadas internacionalmente, e de todos os magistrados, reconhecendo o seu inestimável papel, ao longo de nossa história, como poder pacificador de desacordos e instância de proteção dos direitos fundamentais”. A independência do Poder Judiciário é elemento fundamental do Estado Democrático de Direito. Depois de três anos e meio de ataques e desinformação do bolsonarismo contra o STF e o TSE, é muito oportuno que a sociedade civil expresse, de forma plural e apartidária, incondicional apoio ao Judiciário. A mensagem é contundente: em seu enfrentamento contra o Supremo, Jair Bolsonaro também está isolado.

Aos que se empenham em não ver o caráter apartidário dos manifestos em defesa das eleições e do Judiciário, o presidente da Fiesp, Josué Gomes, desenhou. “É natural que a Fiesp assine um manifesto em defesa da democracia, já que não existe liberalismo, economia de mercado ou propriedade privada, valores tão caros à entidade e ao setor industrial, sem que exista segurança jurídica, cujo pilar essencial é a democracia e o Estado de Direito”, disse Josué Gomes ao jornal Folha de S.Paulo. Como afirma o manifesto organizado pela Fiesp, “a estabilidade democrática, o respeito ao Estado de Direito e o desenvolvimento são condições indispensáveis para o Brasil superar os seus principais desafios”, e por isso “esse é o sentido maior do 7 de Setembro neste ano”. Unida, a Nação brasileira não deixará Jair Bolsonaro destruir a democracia e a independência do País.

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