A demonização da Petrobras

Bolsonaro já deixou transparecer que continuará empenhado em subjugar a Petrobras a seus propósitos particulares

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2022 | 03h00

Os recentes ataques de Jair Bolsonaro à Petrobras, em razão dos reajustes de preços dos combustíveis, obedecem a um padrão: diante de problemas que podem prejudicá-lo eleitoralmente, o presidente, em lugar de se esforçar para resolvê-los, empenha-se em livrar-se da responsabilidade, transferindo-a a terceiros.

Costumeiramente indiferente aos limites institucionais de seu cargo, Bolsonaro decidiu tentar interferir diretamente na política de preços da Petrobras, o que já seria impróprio mesmo se a empresa fosse totalmente estatal. À TV Ponta Negra, do Rio Grande do Norte, Bolsonaro, sem qualquer pudor, relatou que, ao saber que haveria reajuste, o governo pediu à direção da estatal que “deixasse (o aumento) para o dia seguinte”, para permitir que tivesse efeito o projeto de lei que muda o cálculo do ICMS sobre os combustíveis. Como não foi atendido, acusou a Petrobras de ter cometido um “crime” contra os brasileiros.

Não se pode condenar um investidor que desista de colocar seu dinheiro numa empresa que está à mercê dos humores de Brasília. Ou seja, Bolsonaro e os demais oportunistas políticos que decidiram demonizar a Petrobras para ganhar votos estão prejudicando seriamente uma das maiores empresas brasileiras – e nem assim vão conseguir reduzir significativamente os preços dos combustíveis. 

Bolsonaro declarou que a Petrobras “não colabora com nada”, como se fosse obrigação da empresa descuidar de seus interesses para se dedicar a questões que não lhe dizem respeito, como a condução da política econômica. 

Ora, quem tem de trabalhar para que a economia do País não fique tão vulnerável às variações no preço do petróleo é o governo federal. Aos executivos da Petrobras cabe somente administrar bem os recursos da empresa, garantindo retorno aos investimentos feitos por seus acionistas.

Bolsonaro disse ainda que, se dependesse de sua vontade, a estatal “poderia ser privatizada hoje”. Seria realmente uma ótima medida, pois nesse caso o presidente não teria mais condições de interferir nos rumos da empresa, restando-lhe apenas o esperneio. Mas a venda da Petrobras jamais vai acontecer enquanto Bolsonaro, um dedicado adversário das privatizações, estiver no poder.

Pior: Bolsonaro já deixou transparecer que continuará empenhado em subjugar a Petrobras a seus propósitos particulares. Em fevereiro do ano passado, Bolsonaro demitiu o então presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, porque este se recusou a atrelar a política de preços da empresa aos interesses bolsonaristas. Para o lugar de Castello Branco, Bolsonaro escolheu um general da reserva, Joaquim Luna e Silva, decerto na presunção de que, como militar, seria obediente às ordens do presidente. Como isso não aconteceu, Luna e Silva passou a ser violentamente pressionado por Bolsonaro e não deve durar muito mais tempo no cargo.

Ou seja, Bolsonaro não descansará enquanto não fizer a Petrobras trabalhar ativamente por sua reeleição, sem qualquer consideração pela empresa e pelo País.

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