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A descida aos infernos do Haiti

O cenário ali é tão catastrófico, que não se sabe sequer quem governa o país

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 03h00

O Haiti é considerado o país mais pobre do hemisfério ocidental. Em 200 anos de história ele sofreu diversas intervenções estrangeiras. Sua política é recorrentemente tiranizada por ditadores e a economia, por cartéis predadores. No século 21, desastres naturais como o terremoto de 2010, o furacão de 2016 ou o surto de cólera do mesmo ano dizimaram centenas de milhares de haitianos. Nos últimos anos, a criminalidade explodiu. Os protestos contra a corrupção se intensificaram, mas a repressão se intensificou ainda mais. Até o momento, não foi aplicada uma só vacina contra a covid em braços haitianos.

Mas o pior nem sempre é certo. O assassinato do presidente Jovenel Moïse mergulhou o país ainda mais fundo no caos.

Na manhã do dia 7, um grupo armado executou Moïse e feriu sua mulher, após invadir sua casa na capital, Port-au-Prince. O primeiro-ministro Claude Joseph declarou-se no comando do país e decretou estado de sítio. À noite, a polícia anunciou que quatro suspeitos foram mortos e dois presos.

Provavelmente eram mercenários. Mas a incerteza sobre os contratantes só inflama a confusão e a angústia da população. Muitos acusam a oposição ou as elites haitianas. Os rumores correm soltos. Há quem diga que o ataque foi orquestrado pela Venezuela ou mesmo pelos EUA. Em fevereiro, Moïse denunciou uma conspiração para assassiná-lo, o que levou à prisão de 23 pessoas, incluindo um juiz e um policial dos altos escalões. Seus oponentes o acusavam de um esquema de corrupção envolvendo a PetroCaribe, um fundo venezuelano, e questionavam a legitimidade de seu governo.

Moïse, um latifundiário que se referia a si mesmo como “Banana Man”, foi eleito em 2016, após a anulação das eleições de 2015. Segundo a oposição, seu mandato de cinco anos deveria ter terminado em fevereiro de 2021. Mas ele defendia que deveria durar até 2022.

Hoje o Haiti é uma democracia parlamentar sem um Parlamento. Desde 2020, após o adiamento das eleições legislativas, Moïse dispensou todos os congressistas, exceto 10 senadores, e passou a governar por decreto. Ao mesmo tempo que prometia conduzir eleições em setembro, ele reescreveu a Constituição e manobrava para submeter o texto a um referendo. Também criou uma nova agência de inteligência, ampliou a tipificação do “terrorismo” para incluir atos de dissidência e passou a reprimir com mais truculência os protestos. A oposição o acusava de cooptar o crime organizado para perseguir os dissidentes.

Moïse negava qualquer aliança. Mas, com ou sem o seu apoio, as gangues vinham aterrorizando a população. Recentemente, mais de 70 pessoas foram massacradas em um conflito armado. Em junho, milhares de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas para fugir à violência. Estima-se que desde 2019 os sequestros tenham triplicado.

A violência política no Haiti não é novidade. O mundo ainda se lembra da ditadura dos Duvaliers, pai e filho (“Papa Doc” e “Baby Doc”), criadores da infame polícia secreta que aterrorizou o país, os Tontons Macoutes. Em meio ao caos, os criminosos podem se sentir ainda mais livres, até mesmo para tomar o poder. No mês passado, o ex-policial e miliciano Jimmy Cerisier (vulgo “Barbecue”) anunciou uma “revolução” – mas ninguém sabe bem contra quem ou a favor de quê.

O cenário é tão catastrófico, que não se sabe sequer quem governa o país. Não há previsão constitucional em caso de ausência do presidente e do Parlamento. Claude Joseph, indicado como primeiro-ministro por Moïse em abril, se autodeclarou no comando. Mas no mesmo dia do assassinato deveria assumir o novo indicado para a posição, Ariel Henry. Henry tem questionado a legitimidade de Joseph. A questão deveria ser arbitrada pelo presidente da Suprema Corte. Mas ele morreu há duas semanas por covid-19.

Mais de 200 anos após os escravos na Ilha de Hispaniola – a colônia mais rica da França, conhecida como a “Pérola das Antilhas” – liderarem a rebelião que fundou o Haiti, os haitianos ainda não são livres. O mais tétrico é que não é impossível que o pior ainda esteja por vir.

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