A desfaçatez de Donald Trump

O presidente americano demonstra, mais uma vez, que é um perigo para a estabilidade global

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2020 | 03h00

Em meio aos esforços globais para lidar com a maior emergência sanitária em mais de um século, o presidente Donald Trump anunciou a suspensão dos repasses feitos pelos Estados Unidos à Organização Mundial da Saúde (OMS), algo em torno de US$ 400 milhões por ano. Trump acusou a OMS de administrar “terrivelmente mal” a pandemia de covid-19 e de “encobrir informações” com o objetivo de favorecer a China, país onde foi registrado o primeiro caso da doença e com o qual o americano vive às turras.

A decisão não chega a ser surpreendente. Desde que chegou à Casa Branca, Donald Trump não perdeu uma só oportunidade de desqualificar acordos, tratados e organizações multilaterais como a OMS, que, em sua visão, só se prestam a desfavorecer os Estados Unidos na razão inversa dos expressivos recursos que recebem de Washington. Mas até para seu padrão de comportamento, é estarrecedor o grau de desfaçatez do ocupante do cargo que até poucos anos atrás era a referência de liderança para o mundo democrático. Se há alguma liderança global que possa ser acusada de se portar mal na condução da atual crise, é justamente Donald Trump, cujo desdém inicial pela covid-19 pode ter custado a vida de milhares de americanos. Acuado pelos fatos, Trump se viu obrigado a mudar de atitude em relação à doença, passando a defender as medidas preconizadas pelas autoridades sanitárias. Seus imitadores mais sagazes o acompanharam no recuo. Mas ainda há os que insistem em brigar com a realidade.

Em entrevista coletiva na terça-feira passada, Donald Trump disse que “os contribuintes americanos fornecem entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões para a OMS anualmente”, o que contrasta com os cerca de US$ 40 milhões que são repassados pela China à organização. “Como principal patrocinador da OMS, os Estados Unidos têm o dever de fiscalizar suas ações e insistir em sua total responsabilização”, concluiu o presidente americano.

É possível que a OMS possa ter falhado em sua missão de promover a saúde e o bem-estar no curso da pandemia de covid-19. Por ora, não há qualquer dado que indique esta falha. Para tomar uma decisão de efeito global, Donald Trump baseia-se apenas em sua percepção. Mas supondo que o presidente americano esteja correto em sua avaliação, seria este o momento mais indicado para sufocar financeiramente a OMS? É evidente que não. Ao fazê-lo, Trump deixa claro que sua suposta preocupação com as boas práticas internacionais para enfrentar a emergência sanitária é mero pretexto para, no fundo, promover seus interesses eleitorais. Em meio à campanha pela reeleição, o incumbente sabe que seu nacional-populismo cala fundo nos corações de milhões de americanos.

Outra possibilidade, não excludente, é que, ao cortar o financiamento da OMS, Trump pretende desviar a atenção sobre sua própria atuação calamitosa. Membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o democrata Chris Murphy afirmou que, ainda que erros tenham sido cometidos pela OMS e pela China no tratamento inicial da crise, na verdade, o presidente americano busca apagar seu fracasso da memória de seus concidadãos. “Neste momento, há um esforço coordenado entre a Casa Branca e seus aliados para encontrar bodes expiatórios pelos erros fatais que o presidente cometeu no início da crise”, disse o senador.

Mais uma vez, Donald Trump demonstra que pode ser uma ameaça à estabilidade global. Não há razão que justifique uma deliberada ação de enfraquecimento da OMS no exato momento em que o mundo inteiro clama desesperadamente por uma coordenação global de esforços para lidar com um problema gravíssimo como é a disseminação desenfreada do novo coronavírus. A OMS é, por excelência, a entidade apta a organizar estes esforços.

Eventos extraordinários às vezes revelam ao mundo líderes extraordinários. A pandemia de covid-19, ao contrário, está apenas confirmando a pequenez de Donald Trump.

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