A desigualdade e a urgência das reformas

Um país desigual não oferece as mesmas oportunidades às suas crianças, e no Brasil essa injustiça vem se agravando por decisões equivocadas e omissão do governo

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2021 | 03h00

O governo de Jair Bolsonaro é profundamente acomodado. Sem gerir com responsabilidade os problemas que afetam a situação atual da população – por exemplo, na economia e na saúde –, também não manifesta interesse em promover reformas estruturantes de médio e longo prazos. O objetivo de Jair Bolsonaro resume-se às eleições e à permanência no poder.

Com isso, nas atuais circunstâncias políticas, as reformas ficam parecendo um tema distante, quase utópico. No entanto, a despeito de tudo isso, a realidade insiste em lembrar a necessidade e a urgência de mudanças estruturantes. Sem reformas, a população fica especialmente vulnerável às crises, como mostrou recente pesquisa do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social). Entre 40 países avaliados, o Brasil foi onde a pandemia mais ampliou a desigualdade, avaliou o estudo, com dados internacionais do Gallup World Poll.

A pesquisa da FGV Social avaliou a percepção da população em relação a políticas públicas na saúde, na educação e no meio ambiente. Colhidos antes e depois da pandemia, os dados indicam que a deterioração social brasileira foi mais forte entre a população de renda mais baixa. 

Na educação, a satisfação dos 40% mais pobres caiu 22% no Brasil. No mundo, a taxa média foi de 2,38%. Segundo Marcelo Neri, diretor da FGV Social, o porcentual brasileiro reflete a piora dos dados educacionais na prática. Por exemplo, com a pandemia, o tempo médio de estudo diário da população de 6 a 15 anos caiu para 2 horas e 18 minutos. Entre os mais pobres, esse tempo ficou abaixo de 2 horas, e nas classes A e B, acima de 3 horas, agravando o abismo social. 

Além disso, com o fechamento das escolas por força da pandemia, muitas crianças e jovens deixaram de estudar porque não tinham acesso à internet, seja pelo celular ou pelo computador. Ou seja, a pandemia não apenas trouxe novos desafios, mas potencializou o efeito nocivo de carências antigas, como a ausência de infraestrutura adequada.

Não há dúvida de que o governo de Jair Bolsonaro errou, por ação e omissão, em muitas frentes relativas à pandemia. Com a CPI da Covid, o Senado investiga uma parcela dessa irresponsabilidade imediata do governo federal. O problema, no entanto, não se resume à má gestão do curto prazo. A pandemia expôs também o alto custo social e econômico das omissões na realização das reformas de médio e longo prazos.

Assim, é fundamental que haja a devida responsabilização política, administrativa e penal do presidente da República pela condução irresponsável do governo federal na pandemia. Mas não basta evitar a impunidade de Jair Bolsonaro para que se consiga uma efetiva proteção da população mais carente. É preciso enfrentar seriamente os problemas e suas causas.

Nesse sentido, é patente a inconveniência, para um sustentável desenvolvimento econômico e social do País, de um eventual retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto. De nada adianta Lula apresentar-se como antibolsonarista se, de sua parte, não há disposição para realizar reformas aptas a proporcionar efetivas mudanças no funcionamento do Estado e nas condições sociais e econômicas do País. No caso lulopetista, não há sequer proposta, como ficou patente nos governos de Dilma Rousseff.

A desigualdade social produz efeitos nefastos sobre todos os âmbitos da vida social, começando pelo desrespeito ao princípio fundamental do regime republicano. Um país desigual não oferece as mesmas oportunidades às suas crianças. No entanto, em vez de ser enfrentada, essa injustiça vem se agravando, por decisões públicas equivocadas de curto prazo e por reiterada omissão de governos populistas na realização das reformas.

As consequências desiguais da pandemia sobre a população, piorando ainda mais a vida de quem já estava em situação desfavorável, devem suscitar responsabilidade das lideranças civis e políticas. Não cabe populismo diante do drama social de parcela significativa da população. É hora de propostas consistentes, com pessoas honestas e competentes, capazes de implementá-las.

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