A desunião dos EUA

Pesquisas revelam ser necessário um exame de consciência para os dois lados da polarização.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 03h00

Em seu discurso inaugural, Joe Biden reafirmou seu grande tema de campanha: a unidade. Mas se poucos questionam a prioridade dessa missão, menos ainda têm dúvidas sobre o desafio extraordinário que ela comporta. Fora esses consensos, o povo americano está dividido como nunca. Uma compilação das pesquisas do Pew Research Center durante o mandato de Trump mensura estatisticamente essa divisão em áreas capitais: das preferências partidárias às disputas sobre fatos, passando pela desigualdade racial até a valoração das instituições democráticas.

A eleição de Trump em si foi singular: o magnata e entertainer foi o primeiro presidente sem qualquer experiência governamental ou militar. Diferentemente de outros presidentes que, logo após as eleições, buscaram com maior ou menor sinceridade resfriar a luta política, Trump resolutamente a inflamou. “Trump dividiu republicanos e democratas mais do que qualquer outro chefe do Executivo em três décadas”, demonstra a pesquisa.

A aprovação geral de sua gestão nunca excedeu 50% e no final caiu para 29%. Mas, em média, 86% dos republicanos a aprovaram, ante 6% dos democratas. Se em 1994 a disparidade de opiniões entre republicanos e democratas sobre dez “questões fundamentais” – como o papel do governo, proteção ambiental ou segurança nacional – era, em média, de 15%, já no primeiro ano da presidência de Trump ela era mais de duas vezes maior: 36%.

“Uma das poucas coisas em que republicanos e democratas puderam concordar durante o mandato de Trump é que não partilhavam do mesmo conjunto de fatos.” Em 2019, cerca de 3/4 dos americanos disseram que os eleitores dos dois partidos discordavam não só sobre políticas públicas, mas sobre “fatos básicos”. Os dados mostram que ambos os lados “depositaram sua confiança em dois ambientes de mídia praticamente opostos”. A desinformação despontou como uma preocupação cada vez maior: em 2019, metade dos americanos disse que esse é um “grande problema”, proporção maior do que os que disseram o mesmo sobre racismo, imigração ilegal, terrorismo ou sexismo.

Paradoxalmente, se Trump bombardeou a legitimidade das instituições democráticas – da imprensa ao judiciário até o processo eleitoral –, ele teve um efeito galvanizador sobre as eleições: o pleito teve a maior taxa de comparecimento, e Biden e Trump tiveram o primeiro e o segundo maior número de votos da história. Mas a polarização foi aberrante: 8 em 10 eleitores de cada grupo afirmaram discordar do outro não só sobre prioridades políticas, mas sobre “valores e objetivos americanos centrais”.

A pandemia, além de inequivocamente exacerbar as divisões partidárias, agravou a deterioração da imagem dos EUA no mundo que já começara no início do mandato. Entre 13 países (incluindo aliados europeus, Canadá e Japão), apenas 15% da população acredita que os EUA geriram bem a crise, muito abaixo dos que disseram o mesmo sobre a União Europeia, China ou OMS.

As pesquisas revelam uma crise existencial profunda e a necessidade de um exame de consciência para os dois lados da polarização nos EUA – e, vicariamente, em outras nações, como o Brasil, que vivem o mesmo drama.

Se este momento disruptivo foi um espasmo ou será um racha duradouro, dependerá primariamente da disposição dos políticos, do viés de Trump ou do oposto, de afirmar ou não o radicalismo em questões como livre comércio, imigração ou divisão racial. Em janeiro, 68% dos americanos disseram que não gostariam que Trump continuasse a ser uma figura política importante. Alguns republicanos se afastaram, mas muitos ainda o apoiam. Biden, por sua vez, terá de refrear os radicais de seu próprio partido, ansiosos por utilizar a maioria conquistada nas duas Casas para promover um expurgo implacável contra os apoiadores de Trump.

Realisticamente, é mais do que improvável que todas estas fissuras abertas ou aprofundadas sejam reduzidas no curto prazo. Se não se ampliarem, já será um triunfo dos republicanos democráticos e dos democratas republicanos.

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