A deterioração do emprego

OIT mostra que a pandemia causou muitos males. Mas falhas do governo nas áreas econômica e social contribuíram

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2022 | 03h00

O mercado de trabalho no Brasil estará pior no fim do mandato do presidente Jair Bolsonaro do que estava no início. O total de desempregados, de 12,2 milhões de pessoas em dezembro de 2018, deverá alcançar 14 milhões no fim de 2022. A despeito de celebrações estrepitosas do presidente da República e de seu ministro da Economia, Paulo Guedes, com a geração de empregos formais nos últimos meses, o mercado de trabalho nacional, fortemente marcado pelo crescimento da informalidade, vem tendo recuperação muito lenta e vem perdendo qualidade.

A pandemia responde por boa parte da deterioração e do atraso na redução do desemprego. Mas o fato de que, também nessa questão, como na do crescimento e do controle da inflação, o Brasil está pior do que os demais países é sinal de que há problemas específicos. Erros, omissões, despreparo e incompetência do governo Bolsonaro nos campos econômico e social são os mais óbvios deles.

Mais uma vez, o Brasil apresentará um dos piores resultados entre os países da América Latina, de acordo com relatório da Organização Mundial do Trabalho (OIT) sobre o mercado de trabalho em 2022. E a América Latina é, entre todas as regiões do mundo, a que enfrenta problemas mais graves para a recuperação de seu mercado de trabalho.

São preocupantes as projeções para o emprego em todo o mundo ao longo deste ano. A OIT revisou para baixo sua previsão para a recuperação do mercado do trabalho no mundo. Aumentou sua previsão de déficit de empregos em tempo integral no ano e estendeu para depois de 2023 sua projeção para o retorno do desemprego aos níveis observados antes da pandemia.

Por terem buscado ocupação por períodos longos sem consegui-la, muitos trabalhadores desistiram da procura, razão pela qual, do ponto de vista estatístico, deixaram de fazer parte da força de trabalho. É um fenômeno mundial decorrente da pandemia. A OIT estima que, no fim deste ano, a força de trabalho mundial continuará menor do que a de 2019. 

Outro problema que a pandemia causou foi o aprofundamento das desigualdades dentro de um país e entre os países, o que enfraqueceu o tecido social, econômico e financeiro de quase todos eles, adverte a OIT. E esse mal levará anos para ser reparado, com consequências duradouras sobre a força de trabalho, a renda do trabalho, a coesão social e até na política. “Após dois anos de crise, as perspectivas permanecem frágeis e o caminho para a recuperação é lento e incerto”, disse o diretor-geral da OIT, Guy Ryder.

No caso do Brasil, o impacto negativo da covid-19 não foi apenas sobre a força de trabalho e a taxa de desocupação. Outro efeito da pandemia, mais sério e de duração mais longa, foi a perda de qualidade do emprego. O mercado de trabalho brasileiro já enfrentava a tendência de aumento da informalidade e do emprego temporário. Esse último tipo de ocupação representava 22% do emprego no País em meados de 2020 e subiu para 37% no primeiro trimestre do ano passado. Essa mudança afeta a produtividade do trabalho e pode comprometer o desenvolvimento futuro.

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