A diferença que a vacina faz

O novo surto de covid-19 na Europa lança luz sobre a importância da vacinação, único meio de acabar com a pandemia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 03h00

A Europa voltou a preocupar as autoridades sanitárias por causa do aumento expressivo do número de casos de covid-19 no continente. Beira o inacreditável a esta altura, mas se trata de uma alarmante realidade. De acordo com Hans Kluge, diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, departamento que também abrange países da Ásia Central, houve um aumento de 55% no número de casos diários de covid-19 na região em outubro. “Estamos, mais uma vez, no epicentro de uma onda de covid-19”, disse Kluge. Segundo ele, sobre a região paira “uma ameaça real de ressurgimento da doença.”

Não custa lembrar que, essencialmente, uma pandemia só será extinta, ou ao menos estará controlada, quando todos os países afetados tenham adotado as medidas voltadas para esse fim dentro de seus limites. Vírus, por óbvio, desconhecem fronteiras, sobretudo em um mundo hiperinterligado como hoje.

Há duas causas para o retrocesso europeu. A primeira é a desigualdade da cobertura vacinal, não obstante a facilidade de acesso a vacinas na região. Tanto entre países como entre cidadãos de um mesmo país, ainda é muito significativa a diferença entre vacinados e não vacinados. Por razões que vão desde crenças pessoais à manipulação política da informação, ainda há muitas pessoas que duvidam da segurança e da eficácia das vacinas contra a covid-19, a despeito de robusta produção científica e da observação empírica atestando o exato oposto. Além disso, epidemiologistas avaliam que o relaxamento de medidas de segurança sanitária autorizado por governos de diferentes países europeus pode ter sido prematuro ou desordenado.

A Alemanha, um dos países que têm registrado aumento recorde no número de casos de covid-19, é um caso que desafia a compreensão. A despeito de ser o país mais rico da Europa e ter um dos povos mais bem educados do mundo, a cobertura vacinal naquele país está muito abaixo de seu potencial. A resposta para o enigma? “Estamos vivendo uma pandemia de não vacinados e a quarta onda avança com força total (entre nós)”, disse recentemente o ministro da Saúde alemão, Jens Spahn. Apenas 66,5% dos alemães estão totalmente imunizados contra a covid-19, porcentual muito abaixo do de outros países europeus, como Portugal (90%) e Espanha (80%).

A situação não é muito diferente na Itália, país que foi devastado no início da pandemia. Na cidade portuária de Trieste, onde houve aguerridos protestos contra o “passaporte da vacina” determinado pelo primeiro-ministro Mario Draghi, o número de casos de covid-19 tem crescido perigosamente. “É o momento de dizer com clareza: chega de idiotice”, disse o governador de Friuli-Venezia Giulia, Massimiliano Fedriga, sobre os cidadãos que se recusam a receber o imunizante.

Na era da desinformação, o óbvio precisa ser dito: vacinas salvam vidas. A única saída para debelar a pandemia é a vacinação maciça da população. Nos Estados Unidos, onde também se observa grande número de não vacinados por vontade própria, o presidente Joe Biden determinou há poucos dias que as empresas com mais de 100 funcionários deverão exigir o certificado de vacinação de seus colaboradores ou submetê-los a testes semanais para detecção do coronavírus.

Em São Paulo, onde 94% da população adulta já está totalmente imunizada, os números de casos, internações e mortes decorrentes de covid-19 despencaram. Entre os dias 3 e 4 deste mês, a capital paulista registrou apenas uma morte por covid-19. “É um fato fantástico, que mostra o controle da pandemia (na cidade) e a eficácia das vacinas”, disse ao Estado o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido.

Brasil afora, o quadro positivo não é muito diferente. A cultura vacinal da população prevaleceu sobre o negacionismo e a desídia do governo de Jair Bolsonaro. Basta dizer que até hoje a coordenação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) segue acéfala, mas tão valoroso é seu quadro funcional, e tão forte é o desejo da maioria dos brasileiros de receber a vacina, que a vacinação avança no País – e a sociedade volta a experimentar uma certa normalidade após muitos meses de luto e apreensão.

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