A doença como ativo eleitoral

A campanha antivacinação do governo extrapola a análise objetiva da administração pública e resvala para o questionamento do caráter de seus membros

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2022 | 03h00

A história do País revela que houve governos ruins, houve governos péssimos e, agora, há o governo de Jair Messias Bolsonaro. O que o presidente da República faz no curso desta pandemia de covid-19, ou permite que façam em seu nome, não encontra equivalências no rol de sofrimentos já provocados aos brasileiros pelos erros, intencionais ou não, cometidos por seus antecessores. Agir contra a vacinação da população, das crianças em particular, extrapola todos os limites.

Em todo o País, há registro de aumento do número de casos de covid-19 e de internações em UTIs. A variante Ômicron, muito mais contagiosa do que outras cepas do coronavírus, está em franca disseminação. Ao menos seis Estados e o Distrito Federal (DF) estão próximos do limite de sua capacidade de atendimento hospitalar. Sabe-se que só as vacinas podem impedir o colapso do sistema de saúde e, consequentemente, salvar muitas vidas. Mas, ainda assim, a despeito de todo o avanço científico alcançado em tão pouco tempo, o presidente da República e alguns de seus ministros seguem inabaláveis em uma perversa campanha contra a vacinação dos brasileiros.

Entender o que está por trás desse comportamento vai além do campo das avaliações objetivas que podem ser feitas sobre o governo e resvala para o questionamento do caráter dos atuais formuladores de políticas públicas. Como indivíduos com poder sobre o destino de milhões de seus concidadãos são capazes de usar este poder orientados apenas por seus interesses particulares, ainda que isso represente riscos para a vida e a saúde das pessoas?

Vejam-se os exemplos do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Cada um a seu modo, ambos transformaram as pastas que chefiam em casamatas para defesa dos interesses eleitoreiros do chefe, além de seus próprios interesses, comprometendo a qualidade da resposta federal à emergência sanitária.

Noticia-se que tanto Queiroga como Damares têm pretensões eleitorais e são estimulados por Bolsonaro a se candidatar neste ano. Como dedicados bolsonaristas que são, tanto um como outro sabem que medidas estapafúrdias podem escandalizar a maioria da população, mas têm potencial de lhes garantir os votos de uma minoria que podem ser suficientes para elegê-los para cargos no Poder Legislativo. Os recentes atos dos dois ministros, portanto, devem ser vistos à luz da campanha eleitoral que se avizinha.

Em nota do Ministério da Saúde, Queiroga recomendou aos pais que procurem “orientação médica” antes de vacinar seus filhos contra a covid-19. É um despautério. Para nenhuma outra doença infecciosa contra a qual há vacinas é recomendada essa “orientação”. O ardil retórico do ministro da Saúde chega a ser cruel. Em situações normais, quem haveria de achar estranha a recomendação de orientação médica? Porém, no contexto da pandemia, o que Queiroga pretende, na verdade, é apenas instilar nos pais a dúvida sobre a segurança das vacinas que serão aplicadas nas crianças, dificultando o avanço da imunização no País.

Damares Alves, por sua vez, houve por bem criar um canal para que os cidadãos que se sintam “discriminados” por terem de apresentar o chamado passaporte da vacina possam “denunciar” os estabelecimentos que exijam o comprovante. O que a ministra fará com essas denúncias não se sabe, pois, a rigor, exigir o passaporte da vacina não constitui crime e menos ainda uma violação de direitos individuais. A não ser, é claro, na concepção muito deturpada que bolsonaristas como Damares têm do que vem a ser liberdade individual.

As ações e omissões do governo Bolsonaro em apenas três anos, particularmente nos dois últimos, demandarão novos parâmetros de análise dos historiadores no futuro. Afinal, não há mal maior já infligido ao País pelo poder público do que as mortes de milhares de pessoas em decorrência da covid-19 que poderiam ter sido evitadas caso a desídia, o egoísmo, a falta de compaixão e a incompetência administrativa não fossem as marcas da atuação do governo federal no enfrentamento da crise sanitária.

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