A educação na América Latina

Evasão escolar é um dos mais graves riscos do impacto da pandemia na educação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 03h00

A pandemia foi o maior choque sofrido pelos sistemas educacionais em toda a história. Na América Latina, ela atingiu um sistema com déficits crônicos marcado pela maior desigualdade no acesso à educação em todo o mundo.

Segundo relatório do Banco Mundial sobre o impacto da pandemia, a região pode ter o segundo maior aumento absoluto de pobreza de aprendizagem no mundo. Atualmente, um em cada dois alunos é incapaz de ler e compreender um texto simples ao término do ensino fundamental. Essa média pode crescer para quase dois em cada três alunos. Mais de 70% dos 170 milhões de estudantes latino-americanos podem ficar abaixo da proficiência mínima estabelecida pelo Pisa.

Um dos riscos mais graves é a evasão. Algumas simulações sugerem que o abandono escolar pode aumentar em 15%. Outra distorção derivada da pandemia é a migração repentina dos alunos das escolas privadas para as públicas. Além disso, a maioria dos estudantes estará com a aprendizagem defasada quando as escolas reabrirem. Desnecessário dizer que esses impactos são maiores nas camadas mais pobres – entre outras coisas, pela dificuldade de acesso a aulas remotas. Estima-se que a já elevada diferença dos resultados socioeconômicos possa aumentar em 12%.

Segundo o Banco Mundial, as perdas de aprendizagem, capital humano e produtividade podem se traduzir em uma erosão no potencial de ganhos agregados da região no valor de US$ 1,7 trilhão.

A América Latina foi a região com a maior média de tempo de escolas fechadas no mundo: 158 dias. Na Europa, por exemplo, foram 58 dias. No Brasil, foram 191 dias. Mas, com um ano de pandemia, já se sabe que as taxas de contágio entre as crianças são baixíssimas. Isso sugere a revisão das políticas de paralisação do ensino presencial.

Ainda assim, é justificável que os professores do ensino básico, diferentemente dos do ensino superior (que podem continuar as aulas remotamente sem maiores perdas), estejam entre os grupos prioritários para a vacinação. “A simplificação dos currículos, preservando, porém, certos padrões de aprendizagem, a adaptação dos calendários e o cancelamento de exames podem ser medidas necessárias para adaptar o ensino à nova realidade”, adverte o relatório. À medida que o ensino presencial for retomado, mais tempo de aula e programas de reforço também serão cruciais para compensar as perdas.

Os efeitos da evasão nas camadas pobres podem ser catastróficos. Muitos países estão implementando sistemas de alerta para identificar alunos em risco de abandono.

O investimento em tecnologia tem duplo valor. O primeiro é emergencial: compensar, pelo ensino remoto, a paralisia do ensino presencial. O segundo é preparar o sistema para o novo normal pós-pandemia: ensino híbrido, multimodal e cada vez mais dependente da tecnologia e voltado para a capacitação tecnológica. Isso exigirá também programas de formação de professores e gestores escolares.

No Brasil, essas mudanças e desafios devem ser levados em conta na atualização da Lei de Regulamentação do Fundeb, de modo que os novos recursos sejam bem canalizados. Os Estados também precisam se dedicar à elaboração e efetivação das leis de distribuição da cota-parte do ICMS aos municípios (com porcentual obrigatório mínimo de 10%), com base em indicadores de melhoria dos resultados e aumento da equidade. Além disso, é preciso implementar os programas de adaptação às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular.

“Embora os sistemas educacionais da América Latina e do Caribe enfrentem um desafio sem precedentes”, conclui o Banco Mundial, “esta situação excepcionalmente difícil abre uma janela de oportunidades para que a reconstrução torne os sistemas educacionais ainda melhores, mais eficazes, igualitários e resilientes.” Pode parecer apenas uma frase de efeito, mas as oportunidades realmente existem. O Brasil aprovou um aumento expressivo dos recursos para a educação, e a adoção das melhores práticas internacionais no emprego da tecnologia pode fazer com que o fim da crise seja o início de uma revolução educacional.

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