A educação no fundo do poço

A crise do Inep revela a incapacidade administrativa do governo de aplicar o Enem

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 03h05

Em mais uma prova da falta de rumo do governo Bolsonaro na área educacional, dois dos principais coordenadores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que é responsável pela preparação e aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), pediram exoneração de seus cargos na última sexta-feira e deflagraram uma crise no órgão, a menos de dez dias da realização da prova. O Enem é a principal porta de entrada nas universidades públicas. 

Um dos demissionários foi o coordenador de logística do Enem, o que envolve a distribuição dos candidatos nas salas de aula e supervisão de contratos firmados com gráficas e equipes de segurança. O outro demissionário foi o responsável pela elaboração da prova deste ano, para a qual se inscreveram 3,1 milhões de estudantes. Ambos são servidores antigos, que vinham trabalhando havia uma década na organização do Enem. Há um mês, o Inep já havia perdido o diretor de Tecnologia e Disseminação de Informações Educacionais, órgão responsável por sistematizar os dados relacionados à coleta e às avaliações educacionais. Na segunda-feira, mais de 30 servidores de carreira do Inep também pediram afastamento dos cargos de chefia, criticando o que chamaram de “fragilidade administrativa” de seus superiores hierárquicos e os acusando de terem sido escolhidos apenas por critérios ideológicos. 

A crise começou no primeiro semestre de 2021, quando o ministro da Educação, Milton Ribeiro, que trabalhava numa universidade privada presbiteriana, indicou um colega da mesma instituição e sem experiência no setor público, para presidir o órgão. Trata-se de Danilo Dupas – o quinto a exercer o cargo desde o início do governo Bolsonaro. Seguindo orientação de Ribeiro, que em junho prometeu uma “prova sem viés ideológico” e em agosto afirmou que “a universidade deveria ser para poucos”, Dupas teria tentado mudar os docentes responsáveis pela elaboração do Enem. Foi esse o motivo que o levou a colidir com a área técnica do Inep, gerando a maior crise da instituição em seus mais de 80 anos de existência. 

No final da semana passada, a Associação dos Servidores do Inep (Assinep) já havia divulgado uma nota de protesto. Na mensagem, a entidade acusou Dupas de promover assédio moral sobre o corpo técnico e de tomar decisões equivocadas, aumentando com isso o risco de vazamento das questões da prova. Também alegou que, por inépcia, o presidente do Inep comprometeu “a confiabilidade dos dados das avaliações do Enem e dos censos educacionais”. 

Os problemas com o Enem não são novos, mas se agravaram após a chegada de Bolsonaro à Presidência da República. Em 2019, o órgão cometeu erros graves na correção das provas. Em 2020, a data da prova foi marcada e, em seguida, alterada e realizada em plena pandemia. A crise do Inep e o risco de mais problemas com o Enem dão a medida do irresponsável e inconsequente desmonte que o governo Bolsonaro vem promovendo no conjunto de políticas educacionais que o Brasil construiu nas últimas décadas. 

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