A elite que aplaude o atraso

A conivência com o incorrigível patrimonialismo de Bolsonaro é o caminho certo e seguro para o retrocesso

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 03h00

A uma plateia de empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o presidente Jair Bolsonaro fez o discurso de encerramento do Fórum “Moderniza Brasil – Ambiente de Negócios”. Previsivelmente, Bolsonaro nada disse sobre modernização ou empreendedorismo e mesmo o Brasil foi eclipsado pelo seu tema predileto: ele mesmo.

O presidente começou se autocongratulando por suas indicações para os Ministérios, como um “técnico” que escala seus jogadores. Sem solução de continuidade, referiu-se a autoridades indicadas para as cortes superiores como se fossem só mais outros membros do seu “time”, chegando a sugerir que teria influenciado diretamente o voto de um ministro do STF no julgamento sobre as alíquotas do ICMS para os setores de energia e telecomunicações.

Então, Bolsonaro se propôs a mostrar “um pouquinho o que é governo”. Vangloriou-se por ter sido “o único” chefe de Estado contrário às políticas de contenção do coronavírus; por desmontar a fiscalização ambiental; e por “ripar” a direção de um órgão de Estado porque este havia cumprido sua função e embargado uma obra de um empresário amigo.

Tais falas eram recorrentemente precedidas por um sorriso malicioso, como que a insinuar aos empresários que, se reeleito, usaria do poder para privilegiar seus interesses. “Vamos supor que eu seja candidato. Eu vou ter 40% a meu favor dentro do Supremo”, disse, referindo-se às duas indicações à Corte previstas para o próximo mandatário.

Bolsonaro repetiu inverdades sobre a ameaça ao agronegócio do novo marco temporal das terras indígenas em votação no STF e sugeriu que, caso a sua vontade não prevaleça, terá de “tomar uma decisão”. Ao longo do discurso – pontuado por algumas marcas registradas, como palavrões, ridicularização de minorias ou alusões à sua vida sexual –, aproveitou para atacar indiscriminadamente supostos adversários (“os governadores”) e conjurar inimigos imaginários (“os comunistas”).

Nada há de novo nessa visão de governo. Demonizar adversários políticos como se fossem inimigos da Pátria e utilizar a máquina pública para privilegiar amigos e parentes é a agenda de Bolsonaro e seu clã há décadas, e ele pouco se esforçou por dissimulá-la. O lamentável, nesse caso específico, é que estas manifestações explícitas de patrimonialismo tenham sido recebidas por uma plateia formada pelas elites empresariais com gargalhadas e aplausos.

Nada há de ilegítimo em que um presidente da República indique mandatários para cargos públicos afins ao seu ideário político, muito menos que empresários se reúnam com autoridades públicas, ainda mais a autoridade máxima. Mas é um contrassenso uma elite – ou ao menos parte dela – que aplaude o atraso, enquanto anseia pela “modernização”. O patrimonialismo, a confusão entre o público e o privado, a hostilização daqueles que pensam diferente, o comportamento autoritário, o desrespeito à liturgia do cargo, nada disso é engraçado, tudo isso é atraso, e só contribui para degradar o ambiente de negócios no Brasil.

Sintomaticamente, enquanto o presidente disparava suas bravatas na Fiesp, o Fundo Monetário Internacional anunciava sua decisão de fechar seu escritório de representação em Brasília.

Se quisesse realmente modernizar o Brasil, Bolsonaro teria debatido com os empresários soluções para implementar reformas estruturantes, fortalecer o Estado de Direito, eliminar subsídios obsoletos e privilégios inaceitáveis, garantir um orçamento transparente e democrático e promover um sistema tributário mais simples e progressivo.

Outrora, propostas como essas chegaram a ser apresentadas como promessas de campanha. Já no poder, a autoestima de Bolsonaro é tamanha que ele renunciou até a hipocrisia – essa homenagem que o vício presta à virtude. 

Etimologicamente, uma “elite” é o conjunto dos “eleitos”, as pessoas que se destacam por sua excelência em um determinado segmento social. Por seus talentos e aptidões, os empresários são como que eleitos para produzir, gerar riquezas, empregos e prosperidade social. É hora de cooperarem para eleger um líder para o País mais capaz de ajudá-los a cumprir essa missão.

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