A escalada dos juros

Copom deixa clara a intenção de endurecer sua política e cuidar menos do crescimento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 03h00

Ainda assombrado pela inflação, o Brasil chegará ao réveillon, quase certamente, com juros básicos de 8,25% e novos aumentos previstos para os meses seguintes. Mais entraves ao crescimento econômico e à criação de empregos, além de maiores custos para o Tesouro, serão alguns dos efeitos do aperto prometido pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC). A promessa ficou clara na última quarta-feira, quando foi anunciado o aumento da taxa básica para 6,25%. Foi a quinta alta consecutiva, em 2021, e pela segunda vez o acréscimo foi de 1 ponto porcentual. Dentro de um mês e meio, na próxima deliberação, o patamar de 7,25% será provavelmente atingido, segundo o roteiro informado. Na última reunião do ano, em dezembro, a previsão do mercado, de 8,25%, poderá ser confirmada.

O desafio para o Copom é enorme. A inflação deste ano deve passar de 8%, superando amplamente o centro da meta, de 3,5%, e também o limite de tolerância, de 5,25%. O objetivo do comitê, agora, é domar a alta de preços em 2022 e conduzi-la à nova meta, fixada em 3,5%. Pela última projeção do mercado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve subir 4,1% no próximo ano e só chegar à meta (3,25%) em 2023, no começo do novo mandato presidencial. Também de acordo com a estimativa do mercado, a taxa básica de juros, a Selic, deverá estar em 8,5% em dezembro do próximo ano.

O BC procurou combinar, até recentemente, dois objetivos nem sempre conciliáveis: a contenção dos preços e o crescimento econômico. As novas pressões inflacionárias, segundo o Copom, eram passageiras e seria possível enfrentá-las com um ajuste gradual dos juros. Mas a inflação continuou avançando e chegou muito perto de 10% nos 12 meses terminados em agosto. Diante dessa realidade, o aperto monetário ficou mais forte e diminuiu a preocupação com o crescimento.

No jargão típico dos bancos centrais, a mudança é informada no comunicado de quarta-feira: “Neste momento, o cenário básico e o balanço de riscos do Copom indicam ser apropriado que o ciclo de aperto monetário avance no território contracionista”. Em português corrente, o aviso seria mais alarmante: cuidem-se, porque vamos tratar da inflação e pôr de lado outros objetivos.

Esse é o recado mais importante da nota publicada depois da última reunião. A mensagem é compatível com o compromisso, explicitado há alguns dias pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto, de fazer o necessário para frear os preços.

No cenário descrito no começo do comunicado aparecem com clareza os desafios do momento. “A inflação ao consumidor segue elevada”, a alta dos preços de bens industriais “ainda não arrefeceu e deve persistir no curto prazo” e os preços dos serviços têm subido mais velozmente. Além disso, “persistem as pressões sobre componentes voláteis, como alimentos, combustíveis e energia elétrica, que refletem fatores como câmbio, preços de commodities e condições climáticas desfavoráveis”.

Chama a atenção a referência ao câmbio. A instabilidade cambial, com o dólar muito caro, tem persistido desde o ano passado. Mas esse fator nunca havia aparecido com destaque em notas ou atas do Copom, apesar de sua influência nos preços. O dólar muito valorizado, num país com sólido superávit comercial e razoável volume de reservas, como o Brasil, é efeito óbvio da incerteza sobre a consolidação fiscal e da insegurança criada pelo comportamento do presidente da República.

O presidente Jair Bolsonaro é uma fonte de instabilidade econômica e de pressões inflacionárias. Dúvidas sobre a política fiscal e sobre os ajustes e reformas podem afetar a formação dos preços, de acordo com advertência repetida pelo Copom. A principal fonte dessas dúvidas ocupa o gabinete principal do Palácio do Planalto, mas o comitê nunca explicitou esse ponto. O presidente do BC, no entanto, contou recentemente como é difícil cuidar da inflação num ambiente tão tenso. Resta descobrir se alguma taxa de juros será suficiente para neutralizar os efeitos de tanta insegurança.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.