A esperança não decepciona

Em oportuna mensagem, CNBB diz que ‘Brasil não vai bem’, mas destaca que a crise ética, econômica, social e política só será superada por meio do diálogo e da cultura do encontro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2022 | 03h00

Por dois anos o mundo esteve em transe. As pessoas foram obrigadas a se isolar umas das outras para lutar uma guerra contra um inimigo invisível, enquanto eram bombardeadas por estatísticas que escancaravam a fragilidade da vida. O clima de ressurreição de 2022 foi turvado pela guerra na Europa. A morte de seres humanos por seres humanos, a fome que se alastra no globo e os riscos de uma hecatombe nuclear são novos lembretes dos pecados mortais, o egoísmo, a soberba, que aviltam a humanidade. O Brasil, em particular, se prepara para um pleito que pode definir os destinos de uma geração.

É nesse cenário que a Assembleia-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) evoca uma “mensagem de fé, esperança e corajoso compromisso com a vida e o Brasil”.

“Enche o nosso coração de alegria perceber a explosão de solidariedade, que tem marcado todo o País na luta pela superação do flagelo sanitário e social da Covid-19.” Com efeito, durante a pandemia as ações solidárias bateram recordes extraordinários. Relembrá-las é relevante, porque a emergência sanitária está oficialmente em seu fim, mas suas sequelas socioeconômicas perdurarão por anos. Em descompasso com suas tradições cristãs, o histórico de solidariedade e filantropia na nação brasileira é comparativamente medíocre.

“A grave crise sanitária encontrou nosso País envolto numa complexa e sistêmica crise ética, econômica, social e política”, aponta a Mensagem ao Povo Brasileiro. “A Covid-19, antes de ser responsável, acentuou todas essas crises, potencializando-as, especialmente na vida dos mais pobres e marginalizados.”

Os bispos conclamam “a sociedade brasileira a participar das eleições e a votar com consciência e responsabilidade” na “luta pela justiça e pela paz”. Fome, dilapidação dos ecossistemas, desrespeito aos direitos dos indígenas e violência são algumas das trincheiras dessa luta.

Por um aparente paradoxo, o bom combate só será vencido por meio “do diálogo e da cultura do encontro”. A degradação deles torna o quadro atual “gravíssimo”. “A lógica do confronto que ameaça o estado democrático de direito e suas instituições, transforma adversários em inimigos, desmonta conquistas e direitos consolidados, fomenta o ódio nas redes sociais, deteriora o tecido social e desvia o foco dos desafios fundamentais a serem enfrentados.” 

Os bispos alertam para as “tentativas de ruptura da ordem institucional” que buscam desmoralizar a lisura das eleições. “Tumultuar o processo político, fomentar o caos e estimular ações autoritárias não são, em definitivo, projeto de interesse do povo brasileiro.”

A Mensagem adverte para duas ameaças em especial. Uma é a disseminação de fake news. “Carregando em si o perigoso potencial de manipular consciências, elas modificam a vontade popular, afrontam a democracia e viabilizam, fraudulentamente, projetos orquestrados de poder.” A outra é a manipulação religiosa, protagonizada tanto por autoridades políticas como religiosas, “que coloca em prática um projeto de poder sem afinidade com os valores do Evangelho de Jesus Cristo”. 

É inevitável relembrar episódios até há pouco estranhos à cultura política nacional, como a indicação de magistrados e ministros condicionada à sua confissão de fé, privilégios a congregações e seus braços empresariais, pastores traficando verbas em troca de ouro, deputados usando a Bíblia para justificar o armamentismo, proselitismo eleitoral em cultos ou slogans de campanha tomando o nome de Deus em vão.

Oportunamente, os bispos reafirmaram a laicidade constitucional do Estado. “A autonomia e independência em relação ao religioso são valores adquiridos e reconhecidos pela Igreja e fazem parte do patrimônio da civilização ocidental.”

Sem renunciar ao coração da Mensagem, gravado em sua epígrafe – “A esperança não decepciona” (Rm 5,5) –, os bispos admitem que “o Brasil não vai bem”. E uma das principais razões é que lideranças políticas e religiosas vêm atribuindo a César o que é de Deus e a Deus o que é de César. Que os brasileiros se valham das urnas para separar o joio do trigo.

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