A Europa contra os radicalismos

Tudo somado, as eleições em Portugal e na Itália fortaleceram o centro à custa dos extremos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2022 | 03h05

Na última década, a ascensão de movimentos antiliberais despertou apreensão quanto ao futuro da democracia. O radicalismo das militâncias identitárias à esquerda, longe de ser mitigado, foi antagonizado por um populismo de direita caracterizado por uma retórica antielite, flerte com teorias conspiratórias, nativismo e ultraconservadorismo cultural. Na Europa, esse movimento ganhou tração após o colapso financeiro de 2008 e a crise imigratória, e hoje a extrema direita está estabelecida. 

Mas há sinais de que as democracias europeias estão se adaptando e, por assim dizer, “neutralizando” os extremismos. As eleições parlamentares em Portugal e para a presidência da República na Itália, no último fim de semana, deram alguns desses sinais. Mas suas ambivalências mostram que o risco está longe de estar afastado.

Na Itália, as eleições foram confusas como sempre e estabilizadoras como nunca. O colégio eleitoral, formado por parlamentares e delegados regionais, reelegeu o presidente Sergio Mattarella. A solução de compromisso aglutinou os principais partidos, exceto um, evitando o colapso do governo do primeiro-ministro Mario Draghi. Draghi assumiu há um ano com uma agenda reformista e ganhou mais um ano para consolidá-la. É uma chance para a Itália canalizar os recursos do fundo de recuperação europeu para gerar crescimento, empregos e inovação. Isso pode estimular o crescimento europeu, renitentemente freado pela estagnação da economia italiana.

Em Portugal, o incumbente Partido Socialista levou a maioria absoluta no Parlamento. As eleições foram precipitadas após seus aliados da esquerda radical, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, recusarem o Orçamento do primeiro-ministro António Costa. Costa classificou o resultado como “uma vitória da humildade e da confiança e pela estabilidade”.

Mas essa estabilidade está longe de estar consolidada. A extrema esquerda foi penalizada por sua intransigência, com perdas expressivas, mas o partido de extrema direita Chega saltou de 1 para 12 cadeiras, e hoje é a terceira força no Parlamento.

Na Itália, a direita se dividiu. A Liga Norte e o Força Itália se uniram ao governo, deixando o Irmãos da Itália, de extrema direita, na oposição. Mas as pesquisas mostram que ele é o partido de direita mais popular, e poderia ter vencido as eleições gerais, se tivessem sido convocadas. A composição de última hora impediu esse desfecho. Mas em cerca de um ano há a possibilidade de os italianos elegerem o primeiro governo de extrema direita desde o pós-guerra.

Com exceção de países menores, como a Hungria e a Polônia, a rápida e estridente ascensão da extrema direita na Europa não tem sido seguida por uma consolidação do eleitorado. Até o momento, as maiores democracias europeias foram preservadas do grande teste de um governo de extrema direita. Mas crises como a da pandemia podem mudar o sentimento popular. Por hora, ao, respectivamente, contornar uma crise e evitar outra, Portugal e Itália mostraram ser possível fortalecer o centro à custa dos extremos.

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