A evasão escolar na América Latina

Evasão escolar agravará a pobreza e aprofundará as desigualdades sociais no continente

Notas & Infomações, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2021 | 03h00

Por causa do recrudescimento da pandemia, os organismos multilaterais – como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Banco Mundial, a Unesco, a Unicef – estão revisando as estimativas sobre as consequências econômicas e sociais da doença. Um número expressivo de estudos concentra-se, basicamente, no setor educacional. 

Divulgada recentemente, uma dessas pesquisas é de autoria do Banco Mundial. Ela aponta que a evasão escolar registrada em 13 meses de pandemia levará a um retrocesso educacional de pelo menos oito anos na América Latina e no Caribe. A região foi a mais afetada pela suspensão do ensino presencial em todo o mundo, no ano passado. Em média, ela teve 158 dias de fechamento total das escolas. No sul da Ásia, a média foi de 146 dias. No leste e sul da África, foi de 101 dias. E, na Europa, de 58 dias. 

Por causa do fechamento das escolas, mais de 70% dos 170 milhões de estudantes da América Latina e Caribe poderão ficar abaixo da proficiência mínima do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), da OCDE. Além disso, as crianças e jovens que desistiram de estudar deverão ter uma renda futura 10% menor do que teriam caso continuassem estudando, informa o Banco Mundial. 

Pelas estimativas do Banco Mundial, e também da Unicef, da Unesco e da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe das Nações Unidas, a taxa média de abandono escolar na região foi de 20%, entre 2019 e 2020. Em termos absolutos, a evasão teve um aumento de 40 mil estudantes no Chile e de 120 mil na Colômbia nesse período. Em países com uma população bem maior, como o Brasil, o abandono escolar passou de 1,4 milhão, antes da chegada da covid-19, para 5,5 milhões, após a doença chegar. Esse número equivale a 15% da população na faixa etária entre 6 e 17 anos.

O problema é mais grave do que aparenta, uma vez que, do total das crianças e adolescentes matriculados na rede pública brasileira de ensino básico, 4,2 milhões não puderam participar de atividades educacionais remotas, em 2020, uma vez que suas famílias não tinham condições financeiras para comprar um computador ou um celular. 

No caso do México, 2,5 milhões de crianças e adolescentes com idade entre 6 e 17 anos deixaram as salas de aula, em decorrência da pandemia. Mas, quando o universo pesquisado cobre alunos do ensino infantil ao ensino superior, ou seja, na faixa etária entre 3 e 29 anos, o número sobre para mais de 5 milhões, o que representa uma elevação de 66% nas taxas de evasão, segundo levantamento do Instituto Nacional de Estatística e Geografia daquele país. 

Embora os diferentes estudos lembrem que a gravidade dos problemas causados pelo aumento das taxas de evasão escolar dependerá da extensão da pandemia, uma coisa é certa: as crianças das famílias com baixo poder aquisitivo tenderão ainda mais a abandonar os estudos para ingressar na informalidade, com o objetivo de reforçar o orçamento doméstico. Com isso, a evasão escolar aumentará a pobreza, no curto prazo. Agravará as já profundas desigualdades sociais na América Latina e no Caribe, no médio prazo. E atrasará a formação do capital humano de que os países da região tanto precisam para se desenvolver.

Conscientes desses riscos, em vários países da região as autoridades educacionais já começaram a desenvolver programas com o objetivo de oferecer uma educação pública com mais qualidade e equidade e a elaborar estratégias para reter crianças e adolescentes nas escolas por mais tempo. Elas sabem que anos de escolaridade e aprendizagem sólida agregam valor à sociedade, sendo um fator determinante de crescimento econômico. No Brasil, contudo, as autoridades educacionais continuam preocupadas apenas com a criação do homeschooling, sob a justificativa de que ele ajuda a preservar os valores morais da família e não expõe crianças e jovens a questões sobre diversidade sexual, e em mudar a política de compra de livros didáticos, para evitar que tratem de questões de gênero.

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