A experiência que deu certo

A Olimpíada de Matemática deve servir de inspiração para as autoridades

Notas e Informações, O Estado de S. Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 03h00

Criada há 15 anos pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), com objetivo de melhorar a qualidade da educação básica, incentivar o aperfeiçoamento dos professores da rede pública e identificar jovens talentos e incentivar seu ingresso em universidades conceituadas, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas abriu este mês as inscrições para sua 16.ª edição. A prova da primeira fase está marcada para maio e a segunda está prevista para setembro.

Pelas estimativas dos organizadores, a Olimpíada de 2020 pode bater novo recorde de participantes. Em 2016, quando foram concedidas 500 medalhas de ouro, 1,5 mil de prata e 4,5 mil de bronze, foram 17 milhões de competidores e um número recorde de escolas inscritas. Em 2019, a Olimpíada contou com a participação de quase 20 milhões de estudantes e registrou o recorde de participação de municípios. Das mais de 5,5 mil cidades brasileiras, apenas 16 não tiveram representantes no certame, por não terem escolas públicas ou privadas da segunda fase do ensino fundamental e das três séries do ensino médio.

O sucesso desse evento estimulou a criação de outras competições semelhantes por fundações e centros de pesquisa, com o objetivo de mostrar o lado prático do que é ensinado em aula, incentivar a curiosidade das novas gerações pelo conteúdo das ciências exatas e biomédicas e atrair os melhores alunos para as carreiras de cientista e pesquisador.

Atualmente, por exemplo, os alunos do ensino médio participam de olimpíada nas áreas de informática, neurociências, astronomia, saúde e meio ambiente. Em várias delas, o conteúdo das provas vai além do que é previsto pelo currículo das escolas. Os primeiros colocados não só costumam receber ajuda para participar de eventos internacionais, como também conseguem, ao concluir a faculdade, obter vaga nos programas de mestrado das universidades federais e em cursos de doutorado em importantes universidades americanas e europeias.

Com essas iniciativas, o Brasil entrou para a elite mundial da área de matemática. Trata-se do Grupo 5, integrado pela Alemanha, Canadá, China, Israel, Itália, Japão, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos, segundo a International Mathematical Union, que classifica seus quase 80 países-membros em cinco grupos por ordem de excelência.

A ascensão da matemática brasileira a um padrão mundial de excelência chama a atenção para um aspecto relativo a políticas educacionais. Ele revela que, quando uma política educacional é formulada de modo criterioso e com prioridades discutidas com a comunidade acadêmica, o resultado é bom. Foi o que ocorreu com o ensino de matemática entre as décadas de 1950 e 1970, quando foram criados o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Impa. Segundo números divulgados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o impacto científico dos estudos e pesquisas desta entidade já é superior ao das universidades de Harvard, Stanford e Berkeley, nos Estados Unidos.

Infelizmente, porém, o sucesso da Olimpíada Brasileira de Matemática tem beneficiado apenas estudantes vocacionados para a pesquisa acadêmica. Nos demais níveis, como tem revelado o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o Brasil ocupa os últimos lugares. Esse é paradoxo do ensino básico do País: apesar das ilhas de eficiência, como é o caso da Olimpíada Brasileira de Matemática, no conjunto a qualidade do ensino é baixa, por causa de políticas educacionais equivocadas e erráticas.

Por isso, se por um lado a ascensão da matemática brasileira à elite mundial merece aplauso, por outro é preciso que as autoridades educacionais sejam mais consequentes e responsáveis, deixando de perder tempo com preocupações religiosas e enviesamentos ideológicos e se inspirando nas experiências que têm dado certo.

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