A explicação do óbvio

Entrevista do presidente da Petrobras é resposta a devaneios de Bolsonaro a respeito da gestão da companhia e do preço de combustíveis

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2022 | 03h00

A situação a que o País está submetido desde o início do governo Jair Bolsonaro obriga à explicação até mesmo do óbvio. Ao Estado, o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, disse que a companhia não pode ser responsável por conter o aumento dos preços dos combustíveis. “A Petrobras tem responsabilidade social e procura cumpri-la. Mas ela não pode fazer política pública. Ela coloca recursos nas mãos de quem pode fazer”, disse. É algo evidente para todos, menos para quem ocupa o mais alto cargo da República.

Embora Bolsonaro não seja citado por Silva e Luna, a entrevista é uma resposta aos devaneios que o capitão reformado tem repetido sobre a gestão da empresa nos últimos meses. No ano passado, a Petrobras pagou R$ 27 bilhões de dividendos à União, mas o presidente chegou ao cúmulo de criticar a companhia pelos bons resultados. “Os dividendos são, no meu entender, absurdos, R$ 31 bilhões em três meses. Eu não quero na parte da União ter esse lucro fantástico”, afirmou o chefe do Executivo, dias depois da divulgação do lucro líquido referente ao terceiro trimestre da petroleira.

A frase desafia a realidade, mas explicita vários aspectos do pensamento de Bolsonaro. Sempre em busca de inimigos, sua mira raivosa já havia se voltado contra a Petrobras antes e custou o cargo de Roberto Castello Branco. O executivo renunciou após ser agredido em uma das transmissões semanais do presidente a apoiadores – tudo porque comentou que a insatisfação dos caminhoneiros sobre o valor do diesel e a ameaça de greve por parte da categoria não eram um problema da Petrobras. Meses mais tarde, ao falar sobre sua experiência frente à companhia, Castello Branco disse ao Estado que Bolsonaro se sentia “dono da empresa”.

A entrevista de Silva e Luna, que sucedeu a Castello Branco, traz a mesma mensagem com outras palavras. “O que surpreendeu foi perceber que a sociedade, até no nível governamental, dos Poderes, não entendia que a Petrobras não poderia fazer políticas públicas”, disse, num claro recado a Bolsonaro. “Acredito que ninguém vá querer entregar uma empresa para ser conduzida por uma equipe que não dê o melhor resultado possível.”

É quase inacreditável que uma companhia que ajuda a engordar o caixa do Tesouro com valores tão expressivos seja alvo de críticas do presidente. Na lógica bolsonarista, caso tivesse prejuízos bilionários e exigisse aportes da União, a gestão da Petrobras seria digna de elogios? Tentar entender esse pensamento tortuoso exige muito dos interlocutores, mas a única justificativa possível é o desespero pela reeleição. Assim, tudo e todos que possam representar um obstáculo à sua declinante popularidade viram automaticamente inimigos e, por consequência, alvo da fúria do capitão e de seus seguidores.

Múltiplos fatores explicam o comportamento recente dos preços dos combustíveis, entre eles a alta do barril de petróleo no exterior e a desvalorização do real ante o dólar – nesse caso, motivada por incertezas criadas pelo próprio governo. Para o presidente, no entanto, a culpa é sempre dos outros. Antes, o alvo foram os governadores, pressionados, sem sucesso, a alterar o modelo de cobrança de ICMS sobre combustíveis, hoje um porcentual sobre o preço médio, para um valor fixo sobre o litro.

A escolha de Silva e Luna por Bolsonaro chegou a levantar dúvidas sobre a manutenção da política de preços da empresa. O general vinha de uma experiência completamente diferente, em que havia sido diretor-geral de Itaipu – cargo politicamente sensível dada a dificuldade de equilibrar interesses com o Paraguai –, onde igualmente se saiu bem. Ele admitiu que a Petrobras tem feito um esforço para não repassar toda a volatilidade do mercado aos consumidores. Ainda assim, a expectativa é distribuir ainda mais dividendos neste ano. Se Bolsonaro tivesse o mínimo de afeição pelo ato de governar, faria esforços para garantir o melhor uso possível desse dinheiro com políticas públicas efetivas. Mas o País já sabe que esperar isso do presidente é, infelizmente, esperar demais.

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