A fome no centro do debate eleitoral

O tamanho da crise econômica e o desalento da população são uma oportunidade para que o País volte os olhos àquilo que realmente importa

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 03h00

O discurso de lançamento da pré-candidatura de Simone Tebet (MDB-MS) à Presidência trouxe a dose de realidade que tem faltado às discussões de 2022. Acertadamente, a senadora disse que o foco de sua plataforma eleitoral será a fome, mazela social que voltou a assombrar milhões de famílias. “No Brasil, hoje, 5 milhões de crianças vão dormir com fome. No Brasil, hoje, nós temos mais de 20 milhões de brasileiros que ficam dia sim, dia não, sem se alimentar. Esse Brasil é o Brasil que exige coragem, que exige altruísmo, que exige um esforço de todos nós”, afirmou Tebet, no dia 8 passado. “Nada é mais prioritário do que isso”, acrescentou. Em um pronunciamento de 23 minutos, ela mencionou a fome quatro vezes. A título de comparação, Sergio Moro, do Podemos, falou por quase 50 minutos no evento de sua pré-candidatura e citou a palavra duas vezes.

Tem razão a senadora, e os eleitores parecem concordar com ela. Pesquisa da Genial/Quaest mostra que 41% dos entrevistados consideram a economia o principal problema a ser enfrentado pelo País, especialmente o desemprego. Saúde e pandemia foram apontadas por 19%. Questões sociais foram lembradas por 14% e, dentre elas, as menções à fome subiram de 4% em julho para 11% em dezembro.

Fica claro que as preocupações com a covid-19 arrefeceram em razão do avanço e do sucesso da vacinação. É sintomático, portanto, que o Brasil esteja novamente às voltas com problemas econômicos e sociais que pareciam superados há alguns anos – no caso da fome, ao menos, limitados. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios talvez seja o maior exemplo do caos em que o País mergulhou. De uma só vez, o texto acaba com a âncora fiscal do teto de gastos e institucionaliza o calote de dívidas da União já reconhecidas pela Justiça, tudo sob o pretexto de abrir espaço para o Auxílio Brasil. O programa social, no entanto, continuará a ter filas, uma mudança feita a pedido do governo, para que os parlamentares possam contar com os recursos bilionários das emendas de relator, escândalo revelado pelo Estadão.

Já se sabe que a escolha de um economista para definir a agenda de campanha dos candidatos é um fetiche mais do que insuficiente. A alternativa foi completamente desmoralizada depois que o ministro Paulo Guedes se prestou a ser o avalista do governo Jair Bolsonaro. Joaquim Levy entrou com a mesma missão na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff – a diferença é que não aguentou completar nem um ano no cargo.

O tamanho da crise econômica e o desalento da população são uma oportunidade para que o País volte os olhos àquilo que realmente importa. A eleição de 2018 mostrou o quanto é fácil se perder neste caminho, haja vista as discussões em torno do inexistente “kit-gay”. Candidatos demagógicos e populistas prosperam quando desviam dos temas que fazem diferença para a vida dos cidadãos e se aproveitam de momentos ruins, como o atual, para construir e manter currais eleitorais. Os que se lançam ao desafio de forma séria não podem deixar que isso se repita.

O desafio do próximo presidente passa por enfrentar questões estruturais, como rever o engessamento do gasto público. Artigo de Raul Velloso publicado no dia 9 passado no Estadão mostra que a fatia da folha de pagamento – servidores, aposentados e benefícios sociais – no Orçamento aumentou de 39% para 75,6%, tomando espaço de outras despesas e de investimentos. Se não tiver coragem de promover mudanças profundas no modo como se lida com o dinheiro do contribuinte, estabelecendo as verdadeiras prioridades, a sociedade brasileira perpetuará o abismo entre uma elite de privilegiados com acesso garantido aos recursos do Estado e uma massa de desvalidos que não sabem se vão comer amanhã.

É essencial que os postulantes ao maior cargo político do País sejam cobrados a apresentar programas de governo condizentes com a urgência social e econômica. Como bem disse a senadora Simone Tebet, o Brasil não pode mais estar à mercê de aventureiros. O preço da irresponsabilidade tem sido alto demais.

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