A forma saudável de atrair dólares

Com uma das 12 maiores economias do mundo, o Brasil deveria ser atraente para o capital estrangeiro sem depender de guerras ou de outros desastres

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 03h00

O Brasil virou abrigo atraente para investidores internacionais, assustados com a tragédia na Ucrânia e com as ameaças de mais violência, repetidas pelo autocrata russo, Vladimir Putin. Já atraídos pelos juros elevados, os donos do grande capital tiveram mais um motivo para enviar dólares ao mercado brasileiro. Com maior oferta e menor cotação da moeda americana, o efeito inflacionário do câmbio tende a diminuir. Na melhor hipótese, o ingresso de moeda estrangeira poderá também resultar em mais vigor para uma economia debilitada e emperrada. É fácil entender por que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fala sobre medidas para atração de capital estrangeiro, assunto já em discussão, em Brasília, antes da violação do território ucraniano pelas tropas da Rússia.

Com a guerra, os estudos de medidas para atração de investimentos foram acelerados, como informou o Estadão no domingo. As medidas poderão incluir facilidades fiscais para compras de ações por estrangeiros. Novos dólares poderão reforçar, a curto prazo, as iniciativas do Executivo federal para reanimar a economia durante a disputa eleitoral. A busca de recursos externos deve misturar-se, portanto, com ações improvisadas para tirar o País da estagnação, conter a alta de preços e conquistar a boa vontade dos eleitores, neutralizando em parte os efeitos do empobrecimento nos últimos três anos. Toda essa improvisação poderá envolver custos muito altos e benefícios muito limitados.

Para começar, o Brasil tem de ser atraente para o capital estrangeiro sem depender de guerras ou de outros desastres. Com uma das 12 maiores economias do mundo, um grande território e um conjunto notável de recursos naturais, o País deveria atrair investidores de longo prazo – muito mais do que aplicadores em busca de segurança momentânea – por seu dinamismo, por seu potencial de crescimento e pelo bom funcionamento de suas instituições. O ministro da Economia e seu chefe deveriam perguntar por que investidores envolvidos em negócios de infraestrutura têm renunciado às concessões.

As explicações podem ser longas e complexas, mas, em todos os casos, é preciso destacar a estagnação e a insegurança econômicas no último decênio. O Brasil emperrou e, ao mesmo tempo, desajustaram-se as contas públicas, o Tesouro passou a carregar uma dívida crescente e mais cara e os preços ficaram mais instáveis. Tudo isso se agravou sensivelmente nos últimos três anos.

Enquanto o presidente e o ministro da Economia discutem medidas improvisadas para mover os negócios e, talvez, estimular a criação de alguns empregos, muitos bilhões são desperdiçados em benefício do Centrão. Ao mesmo tempo, anunciam-se cortes de impostos, medidas de ocasião para efeitos eleitorais e manobras para conter os preços de combustíveis. Em outros países, a guerra na Ucrânia e seus efeitos nos mercados de petróleo e gás estimulam a busca de menor dependência de combustíveis fósseis. No Brasil, possíveis dificuldades de suprimento de fertilizantes – um efeito da guerra – são mencionadas, pelo presidente, como “oportunidade” para mineração de potássio em terras indígenas.

Governos de economias importantes têm mantido e até intensificado a discussão sobre a busca de economias e estilos de vida mais “verdes”, isto é, ambientalmente mais saudáveis e sustentáveis. É o contrário do espetáculo apresentado em Brasília. Mas nem só a ideia de crescimento mais ecológico tem sido negligenciada.

No poder central, a conversa a respeito de crescimento normalmente se esgota em considerações sobre medidas improvisadas e de curto alcance. Não há sequer esboço de planejamento, de fixação de metas, de identificação de gargalos, de elaboração de reformas amplas e bem estruturadas, de políticas para maior investimento em ativos físicos e em recursos humanos.

Nenhum país administrado seriamente precisa de guerra para atrair capitais. Mas, para ser administrado seriamente, todo país precisa de um governo de verdade, capaz de cuidar do presente e de projetar o futuro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.