A frustração dos eletroeletrônicos

Queda de vendas é consequência da alta da inflação, da diminuição da renda e da corrosão da confiança dos consumidores

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2022 | 03h00

O resultado decepcionante das vendas de produtos eletroeletrônicos é, em vários sentidos, uma síntese dos problemas por que passam a economia brasileira e os brasileiros, e também dos que se podem vislumbrar para os próximos meses. No ano passado, pela primeira vez em quatro anos, as vendas de eletroeletrônicos de consumo para o varejo caíram. A redução foi expressiva, de 7,2%, segundo a Eletros, a associação das empresas que fabricam esses produtos. Esse número destoa claramente dos estimados para os demais segmentos da economia. Ainda não se conhecem os números oficiais do desempenho da economia no ano passado, mas as projeções mais frequentes são de que o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter crescido entre 4,5% e 5%.

“Foi uma frustração”, disse ao Estado o presidente da Eletros, José Jorge do Nascimento Júnior. Os resultados do primeiro semestre de 2021 eram até animadores, mas os da segunda metade do ano mostraram uma grande virada, para baixo. Nem em 2020, o ano mais difícil para todos por causa da pandemia, os resultados tinham sido tão ruins.

A despeito de seu caráter um tanto inesperado, a queda tem várias explicações. São fatores que mostram os problemas que, tendo superado os piores impactos da pandemia, o País passou a enfrentar, por mudanças no cenário mundial e por erros internos, sobretudo da política econômica do governo Bolsonaro.

A inflação é o primeiro deles. Outros países registraram aceleração da inflação no ano passado, em razão de fortes medidas de estímulo à recuperação da atividade econômica. Mas, no Brasil, o aumento foi mais intenso. No ano passado, a inflação alcançou 10,06%, a mais alta desde 2015, em parte pelas incertezas disseminadas pelo governo. Na média das principais economias do mundo, a variação foi de cerca de 5%.

Custos industriais foram elevados em todo o mundo por problemas como gargalos na linha de suprimentos, por falta de bens ou dificuldades de transportes. Itens essenciais para a indústria eletroeletrônica, como aço e componentes, ficaram muito mais caros. A velocidade do aumento médio dos preços não foi, porém, acompanhada pela correção dos salários, cujo valor real médio caiu. O desemprego diminuiu, mas ainda há milhões de brasileiros sem ocupação, com trabalho precário ou afastados do mercado por falta de oportunidades.

O endurecimento da política monetária, com altas seguidas dos juros básicos decididas pelo Banco Central, resultou no encarecimento dos financiamentos. Com empréstimos mais caros, inflação em alta e renda real encolhendo, muitos consumidores desistiram de comprar produtos de maior valor, como os eletroeletrônicos, o que faziam por meio do crediário.

O empresariado considera que, sendo este um ano de Copa do Mundo, as vendas podem se recuperar. Mas pesquisas como as da Fundação Getulio Vargas mostram que, embora tenha subido em fevereiro, a confiança do consumidor continua muito baixa historicamente, mostrando um “comportamento volátil”. Num ano eleitoral, essa volatilidade pode se intensificar.

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