A fusão do DEM com o PSL

União Brasil deve estar à altura da responsabilidade de um grande partido político

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2021 | 03h00

A fusão do DEM e do PSL, recém-aprovada pelos diretórios nacionais de ambas as legendas, dará origem ao maior partido político do Brasil, o União Brasil. O novo partido, que ainda tem de ser homologado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nascerá com uma bancada de 82 deputados (a maior da Câmara, superando o PT, que tem 53 parlamentares), 8 senadores e 4 governadores, além de centenas de prefeitos País afora. O União Brasil contará ainda com as maiores parcelas do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o chamado fundo eleitoral. Será, portanto, um partido muito rico, representativo e de influência capital na definição dos rumos do País.

O movimento de aproximação entre as duas legendas é um passo em direção à melhoria do quadro de representação partidária no Congresso, hoje muito fragmentado. O advento do União Brasil, aliado a medidas saneadoras já adotadas pelo Poder Legislativo, como a proibição das coligações partidárias em eleições proporcionais e a instituição da cláusula de desempenho, poderá estimular outras legendas a seguirem o mesmo caminho trilhado pelo DEM e pelo PSL. Que assim seja. Não há qualquer justificativa republicana para que, em um futuro próximo, haja mais do que oito ou nove partidos com assento no Congresso. São sobejamente conhecidos os males causados pela chamada crise de representatividade.

O União Brasil representará o predomínio de um partido de direita no Poder Legislativo pela primeira vez em duas décadas. A última vez que isso aconteceu foi há 20 anos, durante o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Àquela época, o PFL elegeu mais de uma centena de parlamentares, em boa medida em decorrência do reconhecimento dos eleitores aos importantes serviços prestados pelo partido ao País na transição democrática e na garantia da estabilidade do governo FHC. Com uma grande bancada e, sobretudo, densidade programática, o PFL foi determinante para o País domar a inflação e recuperar o valor da moeda, entre outras conquistas.

O legado do PFL, partido que deu origem ao DEM, é um ativo que pode ajudar o União Brasil a vencer o seu primeiro, e talvez mais importante, desafio: como a nova legenda quer ser vista pela sociedade? O União Brasil, em pouco tempo, terá de mostrar se deve ser recebido como um partido político de fato, ou seja, com uma clara carta de propósitos para o País, ou como mais uma amorfa legenda do Centrão, embora a maior e mais poderosa do bloco. O União Brasil deseja ser um indutor de políticas públicas que desenvolvam o País ou quer apenas ter mais cacife para barganhar cargos e controlar o Orçamento? A resposta a essas perguntas determinará o futuro do partido nascente.

Do ponto de vista estritamente pragmático, a fusão aplaca o instinto de sobrevivência tanto do DEM como do PSL. Em que pese ter conquistado prefeituras importantes na eleição de 2020, o DEM é um partido que nem de longe tem o poder e os recursos financeiros que já teve. Por sua vez, o PSL saltou de um partido nanico para se tornar uma das maiores e mais ricas legendas do País em decorrência da onda bolsonarista de 2018. É muito clara para a direção do PSL a natureza acidental daquele sucesso estrondoso.

Nada há de ilegítimo, diga-se, nessa busca por sobrevivência e mais espaço político que parece ser a razão de fundo para a criação do União Brasil. Os dois partidos que lhe dão vida são legítimas forças de representação da sociedade. Espera-se, entretanto, que o União Brasil se mostre à altura da responsabilidade que passará a ter como força política após sua homologação pelo TSE.

Dos partidos nanicos, como a designação sugere, é esperada a politicagem miúda. Estes desaparecerão, e se espera que seja logo. Já dos grandes, como é o caso do União Brasil, espera-se uma atuação com maturidade e espírito público. Isso significa que seus filiados devem ter consciência da importância dos partidos não só para o constante aprimoramento da democracia representativa, mas também – e principalmente – para defender as reformas de que o País precisa para construir um futuro mais próspero e menos desigual.

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