A gasolina no picadeiro

Bolsonaro sabe por que combustível está caro, mas, por eleição, berra em defesa do consumidor e na crítica à Petrobras

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2022 | 03h00

Mais do que em peça de teatro, o presidente Jair Bolsonaro transformou em enredo de picadeiro eleitoral os dramas em que seu desgoverno fez o País mergulhar. Dia sim e outro também, às vezes aos berros, Bolsonaro aponta seu dedo em muitas direções para mostrar quais são, na sua interpretação intencionalmente equivocada, os responsáveis por situações que ele próprio criou, ajudou a criar ou nada faz para superar.

Deliberadamente desvirtuando o mundo real, tenta reverter a rejeição popular que coloca em sério risco sua reeleição. Seu tema preferido tem sido a gasolina, cujo preço tem peso relevante na inflação persistente que prejudica as pretensões eleitorais de um presidente que só está preocupado em se manter no cargo.

Em sua live semanal das quintas-feiras, Bolsonaro atacou duramente a Petrobras pouco antes de a empresa anunciar seus resultados no primeiro trimestre, resumidos no lucro recorde de R$ 44,5 bilhões. Disse que lucros dessa grandeza são “um crime inadmissível”, “um estupro”. Acrescentou que, “se tiver mais um aumento (dos combustíveis), pode quebrar o Brasil, e o pessoal da Petrobras não entende ou não quer entender”.

De sua parte, Bolsonaro entende a política de preços da Petrobras, como disse ao Estadão o presidente da empresa, José Mauro Ferreira Coelho. Por isso, ao investir contra a empresa e sua forma de definir os preços de seus produtos, o presidente da República apenas utiliza o problema como tema do palanque que montou no circo em que pretende transformar o País. É tudo encenação eleitoreira.

Preços altos do petróleo e, por consequência, de seus derivados, bem como uma certa desordem na economia mundial, decorrem de fatos extraordinários, entre os quais a guerra na Ucrânia e o lockdown em grandes cidades da China para tentar reduzir os casos de contaminação pela covid-19. Impactos igualmente extraordinários decorrem desses fatos. A inflação se acelerou de maneira notável em todo o mundo, com especial destaque para o caso brasileiro. Crescem as previsões de que o País terá inflação de dois dígitos pelo segundo ano consecutivo, fato não registrado desde o início do Plano Real, em 1994.

É nesse ambiente de fatos fora do normal que a Petrobras registrou lucro extraordinário nos três primeiros meses de 2022, que foi 3.718% maior do que o de um ano antes. Alta do petróleo no mercado internacional, aumento do volume e do valor exportado, redução de custos com a importação de gás natural liquefeito, aumento das margens na venda de óleo diesel são alguns dos fatores que explicam esse resultado excepcional. Não há como identificar neles intenção criminosa ou insensibilidade gerencial da direção da empresa.

Ganham os acionistas e o País com a gestão profissional da Petrobras, resistente a pressões políticas que prejudicaram a empresa em governos anteriores. Nos três primeiros meses do ano, a empresa pagou R$ 70 bilhões em impostos, royalties e participações governamentais. Aos acionistas, o maior dos quais é o governo, pagará R$ 48,5 bilhões em dividendos.

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