A grande estratégia chinesa

Democracias liberais têm muito o que discutir em termos de coalizões internacionais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2021 | 03h00

Alavancada pelo desempenho econômico mais extraordinário da história recente e provocada pelas tensões comerciais com os EUA, as demandas pelo desenvolvimento social da população e a pandemia, a China está acelerando sua grande estratégia de evolução interna e externa, política e econômica. Esta estratégia foi tema de um seminário promovido pelo Centro Empresarial Brasil-China com o historiador Jonathan Fenby.

“Duas facetas da estratégia chinesa são projetadas para se encaixar: o desenvolvimento econômico e o controle político em casa e fora”, resumiu Fenby. A China deve consolidar seu papel como economia que mais cresce – 5% em média pelos próximos 15 anos –, mas com a crescente ambição de influenciar a política externa e fortalecer o domínio do Partido Comunista na política interna.

Os pilares econômicos vêm sendo consolidados nos oito anos em que Xi Jinping está no poder: “Fortalecer a economia doméstica; impulsionar o consumo; encorajar tecnologias avançadas; remodelar as cadeias de valor; e reduzir os riscos gerados pelo padrão do crescimento do passado”. Já no exterior, “a China promoverá seus interesses tanto regionalmente quanto globalmente, buscando mais voz em organizações internacionais”.

Esta estratégia será implementada em um novo contexto: a cooperação com o Ocidente e o Japão, que marcou a trajetória da China desde os anos 70, foi em parte substituída pela rivalidade, por sua vez amplificada durante a administração de Donald Trump, em atritos que tocam a economia, a política, a sociedade e a tecnologia. Com Joe Biden, pode-se esperar mudanças de estilo – “com uma agenda mais coesa e, sobretudo, com mais consultas a seus aliados” –, mas não de orientação.

A comparação com a guerra fria é tentadora, mas tende mais a eludir do que a esclarecer. “A área de cooperação entre EUA e China é bem maior do que os pontos de desacordo.” De resto, a China é um adversário muito mais poderoso do que a URSS, com um mercado e uma tecnologia mais dinâmicos, um governo mais competente e uma economia mais integrada internacionalmente. A maioria dos países deseja manter boas relações tanto com os EUA como com a China.

Como parte de sua estratégia, a China deve facilitar o acesso ao mercado para empresas estrangeiras. Além de projetar uma “Nova Rota da Seda”, o país fechou no fim de 2020 um acordo de investimentos com a União Europeia e um acordo comercial com 14 países da Ásia-Pacífico. O mercado chinês desperta cada dia mais o apetite de empresas americanas e precisará reassegurar uma cadeia estável de fornecimento de commodities – algumas particularmente importantes para o Brasil, como o ferro, a soja e outros produtos agrícolas. Assim, China e EUA, bem como as demais democracias liberais, “têm muito a perder engajando-se em uma guerra fria”, afirmou Fenby.

As possibilidades de transações econômicas e de cooperação geopolítica – notadamente no combate às mudanças climáticas ou à pandemia – são promissoras. Contudo, se o seminário com Fenby, tendo sido pautado por um centro empresarial, pode ser escusado por não abordar questões políticas prementes – como as violências praticadas pelo Partido Comunista contra Hong Kong ou os muçulmanos de Xinjiang; seu desprezo pelos direitos humanos e acordos internacionais; ou as ameaças a Taiwan e aos países do Mar do Sul –, as lideranças políticas democráticas não podem se dar o direito de ignorá-las.

Ante o despotismo chinês, as democracias liberais têm muito o que discutir em termos de coalizões internacionais. Mas, até para que sejam efetivas, há muito trabalho interno a fazer. Isso implica revigorar suas economias, proteger sua autonomia tecnológica e impulsionar sua produção científica. Mas, mais importante, antes de considerar qualquer estratégia de contenção direta, o mundo democrático precisará revitalizar convincentemente suas instituições liberais e focar em valores humanos fundamentais para confrontar o despotismo “pelo poder do seu exemplo”, como disse Joe Biden, “e não pelo exemplo do seu poder”.

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