A grande obra chavista

A Venezuela ultrapassou o Haiti como o país mais miserável das Américas. A destruição tomou anos, e a reconstrução também tomará

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2021 | 03h00

Há 50 anos a Venezuela era uma democracia estável e um dos países mais ricos da América Latina. Até 2012, o país ainda tinha o terceiro maior PIB per capita da região. No final de 2021, segundo o FMI, superará o Haiti como o país mais pobre. Uma destruição tão completa não é obra de um dia, mas de décadas de incompetência e má-fé. A Venezuela ilustra o que ocorre quando as fragilidades de uma economia dependente de commodities – no caso, de uma só, o petróleo – não só não são compensadas por políticas anticíclicas e de diversificação, mas são amplificadas a ponto da catástrofe por uma ditadura populista.

Historicamente, a base da economia da Venezuela é o petróleo. Ele responde por mais de 90% das exportações venezuelanas. Praticamente todos os outros bens, das necessidades básicas a artigos de luxo, são importados. Uma baixa de duas décadas nos preços do petróleo ajudou o demagogo esquerdista Hugo Chávez a assumir o poder em 1998. O boom dos anos 2000 lhe permitiu consolidar sua ditadura capturando as instituições políticas e econômicas venezuelanas. Com o fim deste ciclo, em 2014, o país entrou na espiral de devastação que condenou os venezuelanos a uma miséria política, econômica e humanitária irremediável num futuro próximo.

Nos primeiros anos de Chávez, o discurso oficial era de desenvolvimento com base na produtividade e diversificação, acompanhado de um modelo importado de Cuba de programas sociais massivos. Na prática, esses programas foram custeados com o aprofundamento da dependência do petróleo.

Os preços do petróleo, porém, são cíclicos. Por isso, todo petroestado utiliza as altas para gerar reservas. Na Venezuela, não só todo o dinheiro do petróleo foi consumido, como a partir de 2006 o regime começou a se endividar como se não houvesse amanhã e embarcou no processo agressivo de estatização da economia que destruiu sua capacidade produtiva. Entre 2001 e 2015, 52% das empresas venezuelanas fecharam as portas.

Quando os preços do petróleo começaram a embicar e o mercado de capitais passou a restringir os empréstimos, as lideranças bolivarianas corruptas começaram a saquear o pouco que restava da economia antes do colapso total. A distância entre a elite e o povo se transformou num abismo.

As sanções impostas pelos EUA dificultaram ainda mais a rolagem da dívida venezuelana. Sem dólares para importar bens de consumo, a escassez escalou. O País mergulhou na pior recessão da história do hemisfério ocidental, quase duas vezes pior que a Grande Depressão dos EUA. 

Em 2012, a taxa de desemprego na Venezuela era de 7,8% e o salário mínimo, US$ 289. Hoje o desemprego bate 60% e o salário mínimo encolheu para US$ 3,2. Em 2019, o Banco Central admitiu uma hiperinflação de 53.789.500% em três anos. Entre 2010 e 2018, a dívida pública saltou de 34,6% do PIB para 161%.

As consequências sociais são aterrorizantes. Em 2019, cerca de 7% da população havia se refugiado da repressão e da recessão em outros países. Entre 2016 e 2017, segundo o Ministério da Saúde, a mortalidade materna aumentou 65% e as mortes infantis, 30%. No mesmo período, o custo da moradia subiu 667%. A evasão escolar aumentou entre 40% e 50%. Desde que Nicolás Maduro assumiu o poder, em 2013, a economia encolheu 75%. Hoje, mais de 80% dos venezuelanos vivem na pobreza.

A situação deve piorar antes de melhorar. Estima-se que Maduro tenha 15% de aprovação. Seria impossível manter-se no poder em uma democracia. Mas, quanto mais cai a sua popularidade, mais recrudesce a repressão política e mais se multiplicam as medidas populistas de curto prazo que aprofundarão a longo prazo o buraco em que o país está metido.

Uma solução pacífica para a pior crise política e humanitária das Américas deve ser uma prioridade da comunidade internacional. Não há alternativa senão pressionar por negociações entre o governo e a oposição. Mas, realisticamente, essa pressão só será efetiva se o mundo for capaz de envolver os principais fiadores do regime chavista: Irã, Rússia, Cuba e, sobretudo, a China.

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