A grave crise do Chile

Ela há de soar como alerta para o Brasil, que padece com desigualdade crônica, pobreza renitente e alto desemprego

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 03h00

Estável politicamente, graças à pacífica alternância de poder desde a redemocratização no início da década de 1990, e detentor de respeitáveis indicadores sociais e macroeconômicos, o Chile destoava como uma rara ilha de tranquilidade em meio às crises que, em diferentes graus, desafiam outros países da América Latina.

Sob esse manto de estabilidade política e econômica havia tensões latentes em segmentos da sociedade chilena que irromperam no país após o presidente Sebastián Piñera decretar o aumento de 3,75% na tarifa do metrô da capital Santiago, que passou de 800 para 830 pesos – o equivalente a R$ 4,80. O anúncio da medida desencadeou uma violenta onda de protestos que em três dias deixou 11 mortos, milhares de feridos e cerca de 1,5 mil detidos.

Desde o final da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), não se tinha notícia de manifestações tão sangrentas no Chile. A virulência dos protestos levou o presidente Piñera a decretar estado de emergência no sábado passado. Na noite de domingo, em pronunciamento à nação, ele afirmou que seu país está “em guerra contra um inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada nem ninguém e que está disposto a recorrer à violência e à delinquência sem limites”. Piñera estava ao lado do general de Exército Javier Iturriaga, comandante das forças de segurança em Santiago. O presidente chileno não especificou que “inimigo” seria esse. Cerca de 9,5 mil homens da polícia e do Exército guardam as ruas da capital.

Indagado por jornalistas em Tóquio, onde se encontra para acompanhar a cerimônia de coroação do imperador Naruhito, o presidente Jair Bolsonaro disse estar preocupado com a escalada das tensões no Chile. “Tudo o que acontece na América do Sul preocupa (o Brasil)”, disse o presidente.

Há razões para preocupação, e não só pelo agravamento da crise na nação amiga, mas também pela similitude entre os protestos no Chile e os havidos no Brasil em junho de 2013, quando teve início uma série de manifestações em diversas cidades do País após o anúncio do aumento das tarifas de ônibus no Rio e em São Paulo. Logo se viu que o aumento das tarifas foi apenas o estopim para a eclosão de reivindicações muito mais amplas, até então recônditas, cujas repercussões sociais, políticas e econômicas ainda hoje se fazem sentir.

O mesmo parece estar ocorrendo no Chile. Diante da violência desenfreada dos protestos, o presidente Sebastián Piñera voltou atrás e suspendeu o aumento da tarifa do metrô de Santiago. O recuo, no entanto, não arrefeceu os ânimos dos manifestantes. No fim de semana passado, após a decisão do presidente chileno, houve novos episódios de saques a lojas e supermercados, depredação de prédios e estações de metrô, incêndios de veículos e furiosos confrontos entre policiais e manifestantes em várias cidades chilenas.

Setores da sociedade não alcançados pelos benefícios políticos e econômicos tomaram o aumento da tarifa de metrô como um toque de união contra tudo e todos que consideram responsáveis por mantê-los alijados dos ganhos de uma economia que crescerá 2% neste ano, uma realidade peculiar no continente. “Muitas demandas estavam latentes e não haviam sido respondidas (pelo governo).

Acumulou-se a tensão, a frustração que se reforça a cada dia com a vida cotidiana”, disse o sociólogo e analista político Octavio Avendaño, da Universidade do Chile.

O Chile tem a maior renda per capita da América Latina (mais de US$ 20 mil). Embora não seja um país pobre, padece da desigualdade. Os altos gastos com saúde e educação, além da pressão imobiliária, levam as camadas menos abastadas da população a um estado de permanente endividamento. Um terço dos chilenos com mais de 18 anos não pode arcar com suas despesas básicas contando com a própria renda, segundo estudo da Universidade San Sebastián y Equifax.

O sismo no país andino há de soar como um alerta para o Brasil, que padece não apenas com a desigualdade crônica, mas com a pobreza renitente e o alto desemprego.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.