A guerra no mundo interconectado

As necessárias sanções econômicas foram surpreendentes em velocidade e escala. Agora, precisam ser calibradas para evitar consequências indesejadas

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2022 | 03h00

Vladimir Putin já foi descrito como um imperialista do século 20 operando com táticas do século 19 para se firmar com um czar do século 21. Tantos anacronismos são prerrogativa de um autocrata que vem há anos erguendo uma “fortaleza” financeira, isolando o regime da opinião pública e que não tem escrúpulos de impor miséria à sua população para satisfazer seu imperialismo. As lideranças globais não têm essas prerrogativas. Para que suas sanções sejam eficazes elas têm de ser concatenadas, e é preciso lidar com as pressões da opinião pública doméstica.

As sanções foram sem precedentes. Bancos russos foram barrados da rede Swift; EUA, União Europeia, Reino Unido e Suíça sancionaram o banco central russo; diversos países fecharam o espaço aéreo para a Rússia e impuseram limites à importação de tecnologias. Sanções ao petróleo e gás ainda estão em boa parte excluídas, mas países europeus dependentes da energia russa promoveram reversões surpreendentes em suas políticas.

Essas sanções não terão efeito imediato sobre a ofensiva contra a Ucrânia em si, mas imporão grandes pressões à economia russa, limitando o tempo do Kremlin para financiar sua guerra.

A velocidade e a escala das sanções mostram que a comunidade internacional aprendeu lições importantes desde a ocupação da Crimeia em 2014. Mas tal como os conflitos militares, a contraofensiva econômica exigirá cálculos táticos em vista de objetivos estratégicos. A prioridade é impedir que a guerra transborde as fronteiras da Ucrânia, sobretudo em um confronto entre potências nucleares. Além disso, é preciso minimizar os custos para as populações dos países aliados. 

Ainda que o opróbrio do povo russo seja inevitável, é preciso lembrar que o confronto é menos contra a Rússia do que contra o seu regime. A dissidência russa vem crescendo. Mas um colapso rápido demais poderia provocar efeitos adversos. Furar o bloqueio de desinformação do Kremlin na própria Rússia é essencial para engajar os russos contra o regime.

A comunicação pública às populações dos aliados precisa ser clara e consistente. É preciso envolvê-las nas decisões sobre os custos que precisarão ser pagos, esclarecer a sua dimensão e por que eles valem a pena. É fácil apelar ao idealismo e à solidariedade aos ucranianos no curto prazo. Mas o tempo pode desgastar esse entusiasmo. As medidas podem ter um efeito desproporcional sobre a classe média. O Kremlin conta com isso para desestabilizar os governos aliados. Será preciso um empenho continuado para demonstrar a essas populações que conter Putin serve ao seu próprio interesse.

As lideranças precisam se preparar, e preparar suas populações, para as retaliações. No plano econômico, Putin pode impor custos não só na energia, mas em grãos, fertilizantes e metais. Ele já pôs na mesa ameaças nucleares, mas mais iminentes são possíveis ataques cibernéticos contra as finanças e infraestruturas ocidentais.

Não há sinalização de que a China participará das sanções – e o regime observa a estratégia ocidental para calcular sua ofensiva a Taiwan. Mas a falta de liquidez de bancos, empresas e governo russos pode ser ruim para seus negócios. A diplomacia ocidental precisa deixar claro aos chineses que o apoio a Putin é incompatível com relações amigáveis com o Ocidente.

Agora que ativaram seus arsenais econômicos, os aliados precisam solidificar consensos para sinalizar ao Kremlin, por um lado, qual estoque de sanções ainda têm à disposição caso Putin opte por escalar sua guerra ou estendê-la além da Ucrânia e, por outro lado, quais seriam as saídas caso ele decida negociar, ou seja, quais sanções podem ser aliviadas e em quais circunstâncias.

Putin não tem escrúpulos em mesclar recursos militares, políticos e econômicos. O Ocidente tem esses recursos, em maior escala. A condição para que sirvam às prioridades estratégicas é a união política e a primazia das alavancas econômicas sobre as militares. A união não deveria encontrar quaisquer limites. Mas, até para evitar o choque militar, as pressões econômicas precisarão ser muito bem calibradas.

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