A guinada populista de Macri

O presidente da Argentina está disposto a disputar a reeleição e para permanecer no cargo não hesita em trair os votos que lhe foram confiados

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2019 | 03h00

A eleição de Mauricio Macri em 2015 pôs fim a 12 anos de kirchnerismo. Do empresário e ex-prefeito de Buenos Aires esperava-se a guinada liberal e fiscalmente responsável capaz de levar a Argentina de volta ao crescimento econômico após os desvarios cometidos por sua antecessora, Cristina Kirchner. A ex-presidente deixou o cargo largando para trás um severo déficit fiscal e uma inflação de 25% ao ano, das mais altas do mundo, segundo estimativas de analistas independentes.

Macri fez a lição de casa. Reduziu salários do funcionalismo, reviu a concessão de subsídios a setores específicos e baixou impostos visando a aumentar as exportações. Ele não contava, no entanto, com o cenário externo adverso, marcado por tensões políticas e econômicas em várias partes do mundo, adoção de medidas protecionistas por potenciais parceiros econômicos e, não menos importante, aumento de juros nos Estados Unidos.

Diante do insucesso de sua política econômica, sendo a renitência da inflação o mais eloquente deles, o presidente Mauricio Macri recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o que só fez aumentar a desconfiança do mercado e do povo argentino quanto à sua capacidade de reverter os maus resultados econômicos, não só os produzidos pelos erros de sua antecessora, mas os que ele mesmo conseguiu piorar. É previsto que a Argentina, em breve, voltará à recessão.

O modelo do presidente Mauricio Macri será posto à prova na eleição de outubro deste ano. De olho no pleito, ele acaba de adotar medida que contraria tudo o que sua ascensão ao poder representa: o congelamento de preços.

A medida é parte de um pacote de ações do governo para tentar conter a inflação e reativar o consumo no país. “As medidas principais que estamos lançando são fruto de um acordo com empresas líderes para manter, por ao menos seis meses, os preços de 60 produtos essenciais e o não aumento de tarifas de serviços públicos para este ano”, informou a Casa Rosada, por meio de nota.

O congelamento de preços vem na esteira da divulgação de um recente estudo que mostrou o aumento da pobreza no país em 2018 como resultado da alta inflação – 4,7% no mês passado, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos – e do desaquecimento da atividade econômica.

Desde o início do ano, Macri vem digladiando com o índice de inflação e, sobretudo, com a opinião pública. Em janeiro, quando a inflação bateu 2,9%, disse que “a febre estava baixando”. No mês seguinte, reconheceu que o combate à inflação – que então atingia 3,8% – estava “custando mais do que imaginava”. O resultado de março ainda é menor do que o pior mês de 2018, o de setembro, quando a inflação atingiu o pico de 6,5%, mas a maioria dos analistas econômicos no país vizinho prevê que abril e maio ainda serão meses de forte pressão inflacionária.

Premido justamente pelo mal que sua ascensão ao poder deveria debelar, Macri agora toma a direção diametralmente oposta à sua política liberal e opta por uma das mais violentas interferências de um governo na economia de um país. O que se vê agora não é outra coisa se não um guinada populista na Argentina.

A nova política de preços no país vizinho deverá afetar as exportações brasileiras. Na iminência de entrar em novo período recessivo, estima-se que a Argentina reduza ainda mais as compras de produtos brasileiros, principalmente os bens industrializados.

A inflação é um problema crônico na Argentina e vem de longa data: a média de inflação anual nas últimas oito décadas é de 60%. O problema está ligado a uma crise de confiança no país e não serão medidas como congelamento de preços que irão resolvê-lo definitivamente. Mauricio Macri bem que poderia olhar para a história recente do Brasil.

O que parece claro é que, não obstante a degradação de seu prestígio político, o presidente Mauricio Macri está disposto a disputar a reeleição em outubro e para permanecer no cargo não hesita em trair sua origem e os votos que lhe foram confiados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.