A hora do debate público

Brazil Conference debateu os problemas do Brasil e os meios para sua superação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 03h00

O lugar-comum de que toda crise gera oportunidades nunca foi tão comum quanto na pandemia. E ao longo dela, raras vezes se viu tantas e tão boas cabeças reunidas em um lugar comum – caracteristicamente virtual – para discutir essas oportunidades, como na Brazil Conference Harvard/MIT. Produzidos com o apoio do Estado, os 28 painéis geraram uma massa crítica singular, tanto na forma como no conteúdo. A forma foi delimitada pelo tema, Diálogo que Transforma. O conteúdo foi a construção do futuro pós-pandemia.

“Não esqueçamos que o maior símbolo da democracia é o diálogo. Por isso mesmo, a democracia não é silêncio, mas antes voz ativa. Não é concordância forjada seguida de aplausos imerecidos, mas debate construtivo e com honestidade de propósito”, disse o presidente da Suprema Corte, Luiz Fux. “Em tempos de pós-verdade e de polarizações acerbadas, o descenso convida a coletividade a tematizar as diversas perspectivas de um mesmo mundo. Somente através da justaposição respeitosa entre os diferentes conseguiremos eliminar os excessos de cada lado para construir soluções mais justas e pragmáticas.”

A necessidade do diálogo ganhou especial destaque no painel sobre redes sociais. Como disse o advogado Ronaldo Lemos, nas redes a intolerância fomentou uma “disputa de narrativas” nociva: “Tem a tese, tem a antítese e ninguém se convence”. O debate foi particularmente relevante num momento em que o mundo discute a regulação do ambiente digital.

Um dos efeitos da pandemia foi estabelecer um novo paradigma para a cooperação entre empreendedores sociais e empresas privadas. “O empreendedorismo social vai tomar uma força muito grande na próxima década”, disse a CEO da BrazilLab, Letícia Piccolotto, destacando a importância da “integração de um olhar do setor privado para um olhar empático, filantrópico, porque os dois mundos precisam cada vez mais dialogar”.

A Brazil Conference evidenciou a interdependência visceral dos diversos setores da gestão pública e privada para a construção de um contrato social capaz de promover o desenvolvimento sustentável e equitativo.

Na educação, o tema de inclusão digital recebeu forte relevo. Inovação em novas tecnologias e fontes renováveis foi o foco do painel sobre energia. A mesa sobre agropecuária discutiu soluções para aumentar a produtividade e reduzir o desmatamento e o painel sobre saneamento ressaltou o papel das ações públicas para capacitar as empresas a captar recursos com fundos internacionais ESG.

Essas e outras possibilidades de cooperação entre o poder público e a iniciativa privada dependem da regeneração da arena política, o espaço por excelência do diálogo cívico inclusivo e transformador. O jornalista Fernando Gabeira alertou para a distância entre a população e a política mesmo durante as eleições, e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso advertiu que a polarização não deve assustar os que estão no centro. “É preciso que haja personalização. Política não é só ideia. Tem que ter alguém que simbolize um sentimento.” 

Como que respondendo a esse apelo, o fórum reuniu os presidenciáveis Ciro Gomes, Eduardo Leite, João Doria, Fernando Haddad e Luciano Huck. Em artigo para o Estado, a mediadora, Eliane Cantanhêde, afirmou que a reconstrução da agenda pública passa pela neutralização da incompetência, da desídia e da má-fé que compõem o atual desgoverno – tema intensamente debatido nos painéis sobre política exterior, saúde, equilíbrio fiscal e meio ambiente. “A grande lição”, disse Cantanhêde com palavras que poderiam valer para toda a Brazil Conference, é que “é preciso ter mais debates públicos”. “Isso não pode ocorrer somente no período eleitoral de dois meses. Em boa medida, a falta de discussão política da última eleição favoreceu a escolha que gerou o pesadelo. Melhores ideias precisam vencer o populismo autoritário.” 

Nesse sentido, a Brazil Conference foi a um tempo um exemplo valioso e uma robusta contribuição para a construção de uma nova cidadania nacional.

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