A importância de ficar em casa

É preciso que os paulistas respeitem isolamento social para espaçar no tempo número de infectados

Notas & informações, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2020 | 03h00

“Se os pacientes continuarem a chegar nesse ritmo, a gente vai começar apenas a rezar.” Esta declaração foi dada ao Estado por uma enfermeira que trabalha no Hospital Municipal do Tatuapé, na zona leste da capital paulista. Os 32 leitos da UTI da unidade – 10 exclusivos para pacientes infectados pelo novo coronavírus e outros 22 para as demais ocorrências – estão quase totalmente ocupados (77%), cenário que motivou o desabafo da enfermeira diante da iminente impossibilidade de prestar socorro a novos pacientes graves que necessitem de terapia intensiva. Sua fala expressa a um só tempo os sentimentos de impotência e resignação de muitos profissionais da saúde que têm de lidar na linha de frente com os reflexos do comportamento descuidado de um número cada vez maior de paulistas.

Rezar é importante em um momento difícil como este. Traz conforto e esperança para o espírito dos que professam uma fé religiosa no enfrentamento de uma moléstia ainda por ser totalmente entendida pela ciência. Contudo, orações não podem ser a única alternativa à disposição dos profissionais da saúde para evitar mortes. É absolutamente imperioso que os paulistas colaborem com eles e respeitem o isolamento social a fim de espaçar no tempo o número de infectados pelo novo coronavírus. Assim, preserva-se a capacidade de atendimento dos hospitais e mais vidas poderão ser salvas. Enquanto não houver uma vacina contra o Sars-CoV-2 ou a chamada “imunização de rebanho”, quando 80% de um grupo social adquire anticorpos contra um patógeno, não há melhor forma de evitar o aumento descontrolado do número de casos de covid-19 do que permanecer em casa. Os que puderem fazê-lo, é evidente.

A lotação da UTI do Hospital Municipal do Tatuapé não é um caso isolado. O Hospital Geral de Pedreira, próximo a Diadema, já tem 87% dos leitos da UTI ocupados. No Hospital da Vila Nova Cachoeirinha, a ocupação é de 86%. O governo de São Paulo prevê que em maio, quando se estima que haverá o pico de casos confirmados de covid-19 em São Paulo, todas – repita-se, todas – as vagas em UTI no Estado estarão ocupadas. Portanto, somente a adesão maciça da população ao isolamento social pode evitar que se chegue à situação-limite em que os médicos tenham de decidir quem vai e quem não vai para um respirador, ou seja, quem vive e quem morre.

Na segunda-feira passada, o porcentual de paulistas que permaneceram em casa chegou a 50%, bem abaixo da meta de 70% definida pelo governo estadual. “Temos de entender que, se mantivermos este grau de isolamento social, provavelmente teremos lotação dos leitos de UTI a partir de maio”, disse o secretário estadual de Saúde, José Henrique Germann. Esperava-se que o esgotamento da capacidade de atendimento de terapia intensiva no Estado só ocorresse em julho, mas o aumento do número de pessoas que passaram a não respeitar o isolamento social fez a Secretaria da Saúde rever suas projeções.

Os paulistas têm demonstrado um comportamento ambivalente nesta crise. Por um lado, há ações de solidariedade e amor ao próximo como em poucas ocasiões se viu. Cidadãos de todas as classes sociais têm ajudado os mais carentes de acordo com as suas possibilidades, formando uma rede de solidariedade capaz de renovar a fé no resgate de um espírito de coletividade que andava adormecido. Por outro lado, percebe-se nitidamente o aumento do número de pessoas que ignoram as recomendações das autoridades sanitárias e saem às ruas e formam aglomerações como se o vírus que está testando os limites do sistema de saúde não ceifasse milhares de vidas.

Não é improvável que, mais cedo ou mais tarde, o governador João Doria (PSDB) tenha de adotar medidas mais rigorosas para conter os cidadãos em casa. O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Geraldo Francisco Pinheiro Franco, disse ao Estado que é preciso “ser duro com o cidadão que não cumpre com seus deveres e coloca em risco a sociedade”. Que a consciência cívica e humanitária de cada cidadão prevaleça sobre a força do poder público.

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