A indústria abaixo da pré-pandemia

O setor nem se recuperou da crise sanitária e o poder federal nada faz para deter o retrocesso iniciado antes da covid

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2022 | 03h05

Os danos causados pela onda inicial da pandemia continuam marcando a indústria, o setor mais fraco da economia brasileira. A produção industrial cresceu 0,1% em abril e acumulou expansão de 1,4% em três meses consecutivos de aumento. Apesar disso, ainda foi 1,5% inferior à registrada em fevereiro de 2020, pouco antes do surto de covid-19. Ficaram abaixo desse patamar 16 dos 26 ramos cobertos pela pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um dos mais afetados, o segmento automotivo produziu 16,9% menos que no mês anterior à crise da saúde.

Primeiro setor atingido severamente pela pandemia, a indústria perdeu 4,5% de sua produção em 2020. O aumento contabilizado em 2021, de apenas 3,9%, ficou longe de compensar a redução do ano anterior. Em 2022, o volume produzido no primeiro quadrimestre foi 3,4% menor que o de um ano antes. Em abril, foi 0,5% inferior ao de igual mês de 2021. Foi o nono resultado negativo registrado, de forma consecutiva, nesse tipo de comparação. O balanço de 12 meses mostrou recuo de 0,3% em relação ao período imediatamente anterior.

Mas a crise industrial começou muito antes da pandemia. A produção da indústria geral diminuiu em sete dos dez anos de 2012 a 2021. Os piores desempenhos ocorreram em 2015 (-8,3%) e 2016 (-6,4%), na recessão do final do mandato da presidente Dilma Rousseff. Mas o setor, já enfraquecido por graves erros políticos, nunca se recuperou integralmente e, pior que isso, continuou perdendo vigor.

No trimestre móvel encerrado em abril a produção da indústria geral foi 18% inferior à contabilizada no pico da série histórica, em maio de 2011. O maior retrocesso ocorreu na fabricação de bens de consumo duráveis, reduzida a um nível 44,7% mais baixo que o ponto máximo da série, alcançado em março de 2011. No caso dos bens de capital, como máquinas e equipamentos, a diferença foi de 29,7% em relação ao ponto mais alto, atingido em abril de 2013.

Durante décadas, principalmente entre os anos 1950 e 1990, políticas de desenvolvimento contribuíram para a formação de um amplo e diversificado sistema industrial. Houve erros, mas o resultado geral foi positivo. No último decênio, no entanto, a cena econômica brasileira foi marcada por uma indisfarçável reversão desse processo. Não seria exagero descrever esse período como uma fase de desindustrialização.

Vários erros explicam esse retrocesso. Baixa integração internacional, protecionismo excessivo, tributação inadequada, financiamento deficiente, pouco empenho em modernização e inovação e péssimas políticas, como a dos “campeões nacionais”, são partes desse conjunto. As possibilidades de correção foram desperdiçadas nos últimos anos. O grupo instalado na administração federal a partir de 2019 nunca propôs um plano de revitalização econômica, até porque esse tipo de preocupação jamais foi perceptível na agenda do presidente Jair Bolsonaro. Na melhor hipótese, ainda muito incerta, a reindustrialização será um dos objetivos do próximo governo. 

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