A indústria afundou de novo

Em abril, a produção industrial ficou de novo abaixo do patamar pré-pandemia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2021 | 03h00

Durou pouco a recuperação da indústria, um setor diferenciado, em outros tempos, como o mais dinâmico e mais inovador da economia brasileira. Com a queda de 1,3% em abril, a produção industrial acumulou um tombo de 4,4% em três meses, ficando de novo abaixo do patamar pré-pandemia – mais precisamente, 1% abaixo do nível de fevereiro de 2020. A última queda mensal ocorreu em 18 das 26 atividades pesquisadas. Isso confirmou mais uma vez as limitações de uma retomada com desemprego persistente – 14,8 milhões de pessoas no primeiro trimestre do ano – e com os consumidores muito empobrecidos. 

O quadro pode parecer muito bom quando as comparações envolvem o pior período da crise do ano passado. Em abril a indústria produziu 34,7% mais que um ano antes. No primeiro quadrimestre o total produzido superou por 10,5% o resultado de janeiro a abril de 2020. Mas esse confronto envolve uma base muito rebaixada, o bimestre março-abril do ano passado, quando a produção diminuiu 22,3%. Nos 12 meses até abril deste ano, o resultado, ainda positivo, foi um crescimento de 1,1%.

O pouco vigor da recuperação fica mais claro quando se examina toda a trajetória da retomada. A primeira reação à grande queda de março-abril pareceu forte. A produção cresceu 7% em maio e 9,5% em junho, mas isso ainda foi insuficiente para anular a perda do bimestre anterior. Em julho, no entanto, o volume produzido aumentou 8,3% e, a partir daí, a evolução mensal decresceu, chegou a 0,2% em janeiro e se tornou negativa nos três meses seguintes, com quedas de 1% em fevereiro, 2,2% em março e 1,3% em abril.

Nesse percurso, a indústria chegou a sair do buraco, por algum tempo, mas acabou de novo caindo. O curto fôlego da recuperação é em boa parte atribuível ao aperto financeiro dos consumidores. Reduzido a partir de setembro, o auxílio emergencial foi suspenso em janeiro e só retomado, com nova redução, em abril. Além disso, o desemprego continuou muito alto. A desocupação no Brasil já era bem maior que na maior parte das economias emergentes no ano passado, quando a pandemia surgiu, e assim permaneceu em 2021.

O aperto das famílias está refletido na produção de bens de consumo. A fabricação de bens de consumo duráveis, como veículos e eletroeletrônicos, despencou 20,9% em março e 78,8% em abril do ano passado, reagiu fortemente nos meses seguintes, começou a enfraquecer no fim de 2020 e caiu seguidamente nos quatro primeiros meses deste ano.

A produção de bens de consumo semiduráveis e não duráveis – categoria onde se incluem vestuário, calçados, produtos de higiene e alimentos – oscilou bem menos, mas já voltou a cair, diminuindo 0,2% em fevereiro, 10,7% em março e 0,9% em abril. As famílias estão procurando economizar também nas compras do dia a dia.

A contenção dos gastos familiares já havia aparecido nos dados do varejo. No primeiro trimestre as vendas do comércio foram 0,1% menores que nos três meses finais de 2020 e 0,6% inferiores às de igual período de 2020. O balanço de março mostrou recuo das vendas em sete das oito categorias pesquisadas. Só houve resultado positivo (+3,3%) em hipermercados, supermercados e outros comércios de alimentos. Ainda assim, milhões de pessoas só puderam comer, nos primeiros meses do ano, graças a campanhas de distribuição de alimentos.

Além do desemprego superior a 14% da força de trabalho, as famílias tiveram de enfrentar uma forte onda de inflação. No ano, até abril, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 2,37%. Em 12 meses a alta chegou a 6,76%. O limite de tolerância oficialmente fixado para todo o ano é de 5,25%. Pelas projeções publicadas até agora, esse limite será estourado.

Em seis dos dez anos entre 2011 e 2020 o desempenho do setor industrial foi negativo. Nos demais, foi abaixo de medíocre. O melhor resultado nesse período foi a pífia expansão de 2,5% em 2017. Reindustrializar o País deveria ser uma prioridade da política econômica, mas hoje é difícil encontrar, em Brasília, uma política merecedora desse adjetivo.

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