A inflação na mesa e o consumo

Varejo cresceu em setembro, mas custo de alimentos já causa estragos.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 03h00

Comida mais cara afeta o poder de consumo dos pobres, já prejudicado pela redução de salários, pelo desemprego e, desde setembro, pela diminuição do auxílio emergencial. O efeito perverso da inflação dos alimentos é bem visível no desempenho dos hiper e supermercados. O aumento de preços impulsionou a receita e ao mesmo tempo derrubou seu volume de vendas. Mas, apesar do aperto da maior parte das famílias, o volume vendido pelo comércio do dia a dia cresceu 0,6% em setembro, completando cinco meses de expansão e atingindo nível recorde na série iniciada em 2004, mesmo com a perda de ritmo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O crescimento mensal, de 0,6%, foi o menor desde o começo da recuperação, em maio, e a desaceleração foi descrita como normal pelo gerente da pesquisa mensal do comércio, Cristiano Santos. Foi uma acomodação, segundo explicou, depois da forte reação inicial à queda de março-abril. Com cinco meses de avanço, o varejo restrito já alcançou um nível 7,7% superior ao de fevereiro.

Acrescentando-se veículos e material de construção, chega-se ao varejo ampliado, composto por dez segmentos do comércio. As vendas desse conjunto mais amplo cresceram 1,2% em setembro. Mesmo com o aumento mensal de 5,2%, o total vendido pelas lojas de veículos, motos, partes e peças continuou 9,3% abaixo do resultado de fevereiro. Em 12 meses a perda ficou em 11,6%.

O auxílio emergencial ainda favoreceu o consumo em setembro, segundo o pesquisador. O efeito da redução, iniciada nesse mês, só deve ter afetado as vendas a partir de outubro. Mas os danos causados pelo encarecimento da comida já eram evidentes. Entre abril e setembro a receita dos hiper e supermercados cresceu 10,6%, mas o volume vendido só aumentou 4,7%.

Nos últimos três meses apurados, lembrou Santos, a variação da receita foi positiva em dois meses (0,5% em julho e 2,1% em setembro) e negativa em um (-0,7% em agosto). Em todo o período, no entanto, a variação do volume foi negativa, com recuos de 0,3% em julho, 2,1% em agosto e 0,4% em setembro.

Os mais sacrificados foram os consumidores de baixa renda, porque a alimentação pesa mais em seu orçamento. De janeiro a outubro, a inflação das famílias mais pobres chegou a 3,5%, enquanto a das famílias de renda mais alta ficou em 1%, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Nesse período, encareceram muito vários itens de grande peso na cesta de consumo dos mais pobres, como arroz (+47,6%), feijão (+59,5%), leite (+29,5%), óleo de soja (+77,7%) e frango (+9,2%). Ao mesmo tempo, houve alívio em preços de bens e serviços importantes para as famílias de renda mais alta, como gasolina (-3,3%), seguro de automóvel (-9,9%), hospedagem (-8,4%), passagem aérea (-37,3%) e pré-escola (-1,7%).

Seis faixas de renda são consideradas no levantamento do Ipea. Em outubro, a inflação das famílias mais pobres chegou a 0,98%. A da faixa mais alta ficou em 0,82%, taxa também muito elevada, mas, ainda assim, as variações acumuladas no ano permaneceram muito diferentes. No mês passado, a alta de preços da comida teve impacto de 0,61 ponto porcentual na inflação da camada mais desfavorecida e de 0,15 ponto na do grupo mais alto. No grupo de renda média, o quarto de baixo para cima, o efeito foi de 0,32 ponto porcentual.

A evolução das cotações internacionais, principalmente por causa das vendas à China, explica em parte a inflação dos alimentos, mas o comércio externo afeta diretamente apenas os preços de alguns produtos, como soja e derivados, milho, carnes e café. O encarecimento de outros itens, como arroz, feijão e leite, é atribuível mais facilmente a outros fatores, como o aumento da demanda para consumo em casa e as fortes oscilações do dólar. A instabilidade do dólar tem resultado principalmente das incertezas quanto à condução das contas federais e à evolução da enorme dívida pública. Parte importante da inflação tem sido fabricada na sede do Executivo – e a conta mais pesada vai para os pobres.

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