A inovação em involução

O movimento do País segue na direção oposta no diz respeito à meta sobre a industrialização inclusiva e sustentável

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2019 | 03h00

Seguindo sua série de mensurações sobre o desenvolvimento nacional rumo aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU para 2030, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) publicou o estudo Construir Infraestruturas Resilientes, Promover a Industrialização Inclusiva e Sustentável, e Fomentar a Inovação – O que mostra o retrato do Brasil? E o que mostra é desanimador. O quadro geral é de estagnação, com involução em alguns setores-chave e um ou outro avanço digno de nota. Mais desalentador é o fato de que essas tendências regressivas já estavam presentes antes da recessão. Ademais, boa parte dos dados cotejados só cobre até o ano de 2016, o que permite inferir que de lá para cá certas dinâmicas negativas se agravaram.

O caso mais crítico diz respeito à meta sobre a industrialização inclusiva e sustentável. No caso do Brasil, ela foi especificada de modo a priorizar o aumento da produtividade, a geração de emprego e a elevação do PIB. Na prática, o movimento do País segue na direção oposta. Entre 2010 e 2016, o valor adicionado da indústria de transformação em proporção ao PIB caiu de 12,7% para 10,6%. No mesmo período, o valor adicionado per capita encolheu de R$ 2.592,00 para R$ 2.057,00. Enquanto a remuneração média dos empregados, incluindo setores como serviços, aumentou, para os empregados das indústrias ela ficou estável.

O Ipea verificou involução em outras duas metas correlacionadas: a modernização da infraestrutura, em particular no emprego de recursos e técnicas sustentáveis, e os incentivos à pesquisa, desenvolvimento e inovação. A meta para os gastos em pesquisa e desenvolvimento é de 2% do PIB. Entre 2010 e 2015, houve aumento de 1,16% para 1,34%. Mas em 2016, último ano computado, houve regressão para 1,27%. Um indicador ainda pior talvez tenha sido a composição de gastos públicos e privados. Historicamente, estes últimos já são anormalmente baixos no Brasil em comparação com os países mais inovadores, onde a iniciativa privada é muito mais decisiva tanto quantitativa como qualitativamente. Mas, nos mesmos cinco anos, o dispêndio empresarial caiu de 48,9% para 47,6%. Essas dinâmicas regressivas com toda a probabilidade devem ter se acentuado no último triênio.

Houve também uma tendência à perda no acesso ao crédito pelas pequenas e médias empresas. A sua participação no saldo do sistema financeiro de 2012 correspondia a 50%. Em queda contínua, chegou em 2017 a 40%. As perspectivas não são boas, porque, apesar de haver diversas políticas públicas de incentivo ao setor, elas não abrangem todas as suas necessidades e se mostraram até o momento mal articuladas.

Em contrapartida, em pelo menos dois dos oito indicadores houve alguma melhora. Um deles diz respeito ao aumento do número de trabalhadores e pesquisadores dedicados à inovação nas empresas e universidades. Segundo o Ipea, entre 2010 e 2017 o porcentual de graduandos em ciência, tecnologia, engenharia e matemática subiu de 19% para 21%. O pessoal envolvido em pesquisa e desenvolvimento no setor empresarial também cresceu razoavelmente: de cerca de 71 mil em 2010 para 104 mil em 2014. Nota-se ademais um crescimento sensível no acesso a tecnologias da informação e comunicação. Em apenas um ano (2016-2017), o porcentual da população que tem telefone móvel com acesso à internet passou de 61% para 66%, enquanto nos domicílios do País a disponibilidade de internet subiu de 69% para 75%.

Esses dois últimos avanços, contudo, claramente decorrem muito mais de uma conjuntura de mercado global do que de políticas públicas nacionais. Entre estas, vale destacar que está em vigor a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2016-2022. Com recursos escassos para pesquisa e inovação, é preciso priorizar neste plano as áreas nas quais o País já é forte ou promissor. De resto, independentemente da conjuntura, não há outro caminho senão investir na cooperação entre o poder público e o privado a fim de fortalecer este último.

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