A insatisfação com Bolsonaro

O primeiro ano de governo não foi positivo para a popularidade do presidente Jair Bolsonaro, revela a mais recente pesquisa CNI/Ibope

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2019 | 03h00

O primeiro ano de governo não foi positivo para a popularidade do presidente Jair Bolsonaro. Ao longo do ano verificou-se uma crescente insatisfação com sua gestão, revela a mais recente pesquisa CNI/Ibope. Em abril, 27% dos brasileiros consideravam o governo ruim ou péssimo. Em junho, 32%. Em setembro, 34%. Agora, em dezembro, o porcentual de insatisfeitos chegou ao seu maior índice – 38% dos brasileiros avaliaram negativamente o governo Bolsonaro.

Tal insatisfação é corroborada pelo decréscimo contínuo dos que aprovam a gestão de Jair Bolsonaro. Eram 35% em abril, 32% em junho, 31% em setembro e 29% em dezembro.

Quando questionados se aprovam ou desaprovam a maneira de o presidente Bolsonaro governar o País, 53% disseram que a desaprovam. No levantamento anterior, esse porcentual foi de 50%. Ao mesmo tempo, diminuiu o porcentual dos que aprovam o jeito de Jair Bolsonaro governar. Antes, eram 44%. Agora, são 41%.

A pesquisa CNI/Ibope foi realizada entre os dias 5 e 8 de dezembro. Ou seja, a população foi ouvida antes de virem a público os recentes desdobramentos da investigação envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente Bolsonaro. É provável, portanto, que os porcentuais de aprovação do governo sejam hoje um pouco piores do que os medidos no início do mês pelo Ibope.

De toda forma, ao observar as variações ao longo do ano, fica evidente que a insatisfação com o governo não foi causada por um evento específico. Há uma clara tendência de queda gradativa na avaliação positiva e de aumento da insatisfação da população. A conclusão é cristalina. No primeiro ano de mandato, o governo de Jair Bolsonaro não atendeu às expectativas e aos anseios da maioria da população.

Tal fato contraria a promessa feita pelo presidente Jair Bolsonaro de que não governaria em favor de grupos minoritários, mas na defesa dos interesses e sentimentos da maioria da população. Sua retórica ao longo da campanha, e também depois da posse, foi a de que o povo brasileiro não estaria satisfeito com o aparelhamento da máquina pública realizado por setores da esquerda e de que o seu papel como presidente da República seria precisamente devolver o Estado aos brasileiros.

As pesquisas de opinião revelam com indubitável clareza que, se o presidente Jair Bolsonaro se dispõe a entrar em sintonia com a maioria da população brasileira, deve ele mudar o quanto antes suas falas e suas ações. O que o presidente Jair Bolsonaro fez ao longo do primeiro ano – eis o dado incontroverso – agradou apenas a uma minoria da população. Diante de críticas e questionamentos, não cabe ao presidente dizer que governa em prol da maioria. Não foi o que se viu ao longo desses 12 meses.

Em algumas ocasiões, a defesa dos interesses nacionais deverá levar um presidente da República a tomar decisões desagradáveis para parte considerável da população. Especialmente em situações de crise, há necessidade de remédios amargos, e o exercício responsável do poder está precisamente em o governante não se guiar exclusivamente pelo critério da popularidade. Mas o crescimento da insatisfação com o presidente Jair Bolsonaro, observado ao longo de todo o ano, não tem relação com decisões difíceis tomadas por força de necessidades prementes do País. A erosão da aprovação do presidente Jair Bolsonaro está vinculada a uma condução sectária do governo, fustigando adversários, ampliando divisões e agindo sem o decoro e a responsabilidade que o cargo exigem. Além disso, a população ainda está à espera de uma retomada da economia e do emprego que lhe dê confiança quanto aos tempos futuros.

Faltam ainda três anos de mandato. Há tempo suficiente para, se assim quiser, o presidente Jair Bolsonaro emendar-se, atuando como o cargo exige e, não é demais repetir, como a imensa maioria da população espera. O exercício do cargo de presidente da República exige especial cuidado. Ainda que entusiasmem hordas virtuais, extravagâncias e despautérios não resolvem os problemas que precisam ser enfrentados. O ano de 2020 pode – e deve – ser diferente.

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