A lenta retomada do emprego

O desemprego ainda será, tudo indica, um grave problema no próximo ano

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2019 | 03h00

Mais brasileiros terão trabalho em 2020, se a economia crescer na faixa de 2,2% a 2,5%, como indicam as previsões correntes, mas o desemprego ainda será, tudo indica, um grave problema no próximo ano. A última boa notícia foi a abertura de 99.232 postos formais no mês passado. Foi o maior número de vagas criadas num mês de novembro desde 2010, quando chegou a 138.247 o saldo de contratos com carteira assinada. O total acumulado em 11 meses, de 948.344, foi o maior desde 2013. Esses números podem valer uma celebração, mas convém evitar ilusões. Tem-se falado em criação de empregos. Seria mais correto falar de uma recuperação de postos destruídos a partir da recessão iniciada em 2015. Em 2018 e em 2019, até novembro, 1,49 milhão de vagas foram recuperadas, pouco mais de metade dos 2,87 milhões de postos perdidos entre 2015 e 2017, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Citados ontem em reportagem do Estado, esses números podem dar um toque inicial de realismo a qualquer discussão sobre o assunto. Seria preciso abrir mais 1,38 milhão de postos de trabalho, nos últimos dois anos, só para igualar o número de vagas perdidas durante a crise.

Além disso, é impossível indicar como ficará o saldo de empregos formais depois do ajuste normal em dezembro e janeiro. Passadas as festas, parte dos contratados nos meses próximos do Natal é dispensada. A retenção de uma parcela depende das expectativas em relação aos meses seguintes. Se os dirigentes de empresas levarem a sério as projeções de maior crescimento em 2020, o número de funcionários preservados poderá ser maior.

As apostas, no entanto, continuam cautelosas quanto à multiplicação de postos de trabalho. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, projeta para 2020 um crescimento econômico de 2,5%, com expansão de 2,8% para o produto industrial. No entanto, a taxa média de desemprego ainda será muito alta: cairá de 11,9%, número estimado para 2019, para 11,3% em 2020. Nesse caso, a desocupação média ainda será de mais de 11 milhões de trabalhadores.

Ainda havia 12,45 milhões de desempregados no trimestre móvel encerrado em outubro, de acordo com o último levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse contingente equivalia a 11,6% da força de trabalho, isto é, da população economicamente ativa. A proporção era muito parecida com a de um ano antes.

No período de agosto a outubro de 2018, foi registrada a taxa de 11,7%. O número de pessoas desocupadas ficou praticamente igual nos períodos correspondentes dos dois anos. Além disso, a taxa calculada em 2019 ainda foi muito próxima daquela estimada para o mesmo trimestre móvel de três anos antes, de 11,8%. Naquela fase, em 2016, a economia brasileira ainda estava em recessão. A retomada só seria registrada a partir de 2017.

O emprego, repetem os economistas, diminui mais devagar que a produção na crise e também se recupera com defasagem. Mas a economia começou a recuperar-se há quase três anos. Nos dois primeiros o desemprego recuou lentamente, como se poderia esperar. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou devagar, 1,1% em 2017 e 1,3% em 2018, um ano politicamente difícil. Mas o quadro piorou no primeiro semestre de 2019, a desocupação continuou muito alta e a qualidade do emprego caiu, enquanto o governo se mostrava indiferente. As primeiras medidas de estímulo aos negócios começaram a valer só em setembro, como se os mais de 24 milhões em condições precárias (incluídos os desempregados) pouco importassem para o governo.

Se der tudo certo, 2019 terminará com crescimento econômico parecido com o de 2018, talvez pouco inferior. Isso já bastaria para caracterizar um fiasco. Mas há, enfim, alguns sinais positivos, e o ano termina com muita exibição de otimismo quanto a 2020. Se o governo tiver foco, realismo e preocupação, enfim, com o emprego, o próximo fim de ano será muito melhor.

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