A longa crise da indústria

De novo abaixo do nível pré-pandemia, a indústria enfrenta mais um ano ruim

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 03h00

Depois de um mau desempenho no primeiro semestre, a indústria ingressou no segundo com mais um tombo, o quinto em sete meses. A produção de julho foi 1,3% menor que a de junho, quando havia caído 0,2%. Com a nova queda, o volume ficou 1,2% abaixo do patamar pré-pandemia, de fevereiro de 2020. Em recuperação a partir de maio do ano passado, a indústria atingiu em janeiro um nível 3,5% superior àquele patamar, mas o impulso logo se esgotou, num ambiente de baixo consumo, custos crescentes e muita incerteza gerada em Brasília. O total produzido mensalmente encolheu em fevereiro, março, abril, junho e julho.

O segundo semestre começou mal para quase toda a indústria. A produção encolheu em 19 ramos dos 26 cobertos pela pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse desempenho é em parte atribuível ao desarranjo da cadeia produtiva, com os consequentes problemas de abastecimento de matérias-primas e componentes. Esse desarranjo tem sido visível no mercado global. Também é preciso levar em conta as condições da demanda interna. O consumidor nacional é o principal cliente da indústria brasileira. A maior parte das empresas dificilmente vai bem quando esse cliente vai mal.

O Brasil encerrou o primeiro semestre com 14,4 milhões de desempregados, 7,5 milhões com horas insuficientes de trabalho e 5,6 milhões de desalentados, além de 10 milhões de empregados informais. Já muito curto, o dinheiro desses milhões de consumidores ainda vem sendo corroído, mês a mês, por uma inflação alta e crescente.

É fácil, portanto, entender por que o consumo das famílias teve crescimento zero no segundo trimestre. Dinheiro curto, péssimas condições de emprego e preços em disparada têm composto, neste ano, o maior entrave ao crescimento da produção industrial. Mesmo sem outros fatores conjunturais, como os problemas de suprimento de insumos, a situação da indústria seria complicada. O quadro fica pior quando se consideram as condições de financiamento, agravadas pelo aumento dos juros básicos.

A elevação de juros tem sido a resposta do Banco Central (BC) às persistentes e fortes pressões inflacionárias. Embora tecnicamente justificável, essa estratégia agrava a situação dos consumidores já endividados e dificulta a obtenção de empréstimos pelas empresas. A taxa básica já chegou a 5,25% ao ano, pode atingir 6,25% neste mês e alcançar 7,50% até dezembro, segundo estimam especialistas do setor privado.

O controle da inflação é mais difícil quando há muita insegurança nos mercados. No Brasil, o principal fator de insegurança é o presidente da República, fonte de tensão política permanente e de enorme incerteza quanto à evolução das contas públicas. Em permanente campanha eleitoral, ele depende do apoio de uma base fisiológica – e, portanto, custosa – e de uma pauta claramente populista.

Mas os problemas da maior parte da indústria são mais que conjunturais. Em julho, a produção foi 18,5% inferior à de maio de 2011, pico da série histórica. O desempenho do setor foi especialmente ruim na recessão de 2015-2016 e na fase mais crítica de 2020, mas, mesmo sem esses episódios, a tendência nos últimos dez anos teria sido negativa. Entre 2011 e 2020 houve seis anos com desempenho negativo.

Erros do período petista explicam parte desse retrocesso. Não houve estímulo à ampliação e à modernização da capacidade produtiva, a inovação foi negligenciada, incentivos foram mal planejados e desperdiçados, o protecionismo foi excessivo, faltou integração global e a dependência dos mercados vizinhos foi exagerada.

A recuperação iniciada em 2017 foi interrompida em 2019, no começo do mandato do presidente Bolsonaro. Desde janeiro desse ano, nada parecido com uma política de crescimento econômico e de competitividade surgiu em Brasília. A única reforma relevante, a da Previdência, havia sido amadurecida pelo presidente Michel Temer. Se estiver em gestação alguma política de retorno ao desenvolvimento, deve estar sob estrito sigilo em algum gabinete em Brasília.

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