A maioria e o governo

Se a disposição de Bolsonaro é estar em sintonia com a maioria da população, ele deve mudar suas falas e ações

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2019 | 05h47

Não raro, o presidente Bolsonaro utiliza o argumento da maioria para justificar suas falas e ações. Diante de críticas e questionamentos, Jair Bolsonaro alega que ele não governa para grupos minoritários. A preocupação de seu governo seria atender aos anseios da maioria da população brasileira. Assim, aos descontentes com a atual administração caberia tão somente resignar-se, já que o Palácio do Planalto estaria firmemente disposto a defender a maioria e o que ele entende por seus valores.

Se a disposição do presidente Bolsonaro é estar em sintonia com a maioria da população brasileira, ele deve mudar o quanto antes suas falas e ações. A última pesquisa da XP/Ipespe mostra que a maioria não apoia alguns dos principais movimentos feitos pelo presidente da República. Por exemplo, 62% dos brasileiros são contrários a que o filho Eduardo seja indicado para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos.

A maioria dos brasileiros também desaprovou as falas do presidente no mês passado. Para 55% dos entrevistados, as falas do período – por exemplo, contestar os dados sobre o desmatamento da Amazônia ou atacar a memória do pai do presidente da OAB – foram inadequadas.

Quando questionados sobre o impacto das declarações polêmicas do presidente sobre a administração do País, 44% disseram que elas atrapalham muito e 28% disseram que elas atrapalham “um pouco”. Ou seja, 72% consideram que os dizeres do presidente prejudicam em alguma medida o País. Se o presidente quer governar tendo em conta a vontade e os valores da maioria, deverá se emendar. A maioria dos brasileiros não aprova esse jeito do presidente.

O maior sintoma de que o presidente Bolsonaro não tem governado para a maioria da população é o crescimento do número de insatisfeitos, que hoje já são mais numerosos que as pessoas satisfeitas com o governo. A pesquisa da XP/Ipespe mostrou que a desaprovação do governo Bolsonaro cresceu três pontos porcentuais no último mês. Para 38% da população, o governo Bolsonaro é ruim ou péssimo. Já os que avaliaram como boa ou ótima a administração atual foram 33%, o menor índice até agora. A avaliação regular do governo Bolsonaro foi subscrita por 27% dos entrevistados.

Vale lembrar que, no segundo mês deste ano, 40% avaliavam o governo de Jair Bolsonaro como bom ou ótimo, e apenas 17% diziam que era ruim ou péssimo. Em seis meses, o panorama mudou. Agora, o maior grupo é o dos descontentes. Não condiz com a realidade, portanto, a insistência em dizer que Jair Bolsonaro governa para a maioria da população brasileira. As pesquisas de opinião indicam nitidamente que o modo pelo qual o presidente Jair Bolsonaro conduziu o País nos primeiros sete meses de governo agradou apenas a uma minoria.

Não há dúvida de que um presidente da República, procurando zelar pelo interesse do país, deverá em algumas ocasiões tomar decisões que poderão desagradar a parte considerável da população. Especialmente em situações de crise, há necessidade de remédios amargos, e o exercício responsável do poder está precisamente em não se guiar exclusivamente pelo critério da popularidade. No entanto, o crescimento da insatisfação com o presidente Jair Bolsonaro não tem relação com decisões difíceis tomadas por força de necessidades prementes do País. O que tem aumentado a insatisfação com o governo são falas e atos do presidente Bolsonaro absolutamente gratuitos, sem nenhuma outra motivação que seu capricho.

A seguir nessa toada, ficará consolidada uma situação bizarra. Ao contrário de governar para a maioria da população, conforme sua repetida promessa, o presidente Bolsonaro terá diante de si uma Nação de insatisfeitos, cada vez mais numerosos. E julgando dizer impropérios e provocações para uma minoria, como tem sido seu hábito, estará na verdade ofendendo e atrapalhando a maioria da população.

Em toda essa história, há uma deliberada confusão. Maioria de votos no segundo turno não é sinônimo, como pretende Jair Bolsonaro, de apoio majoritário para governar. Para ter esta maioria, não bastam falas polêmicas. É preciso um governo que tenha programas consistentes, que transmita confiança e esperança e que se dê ao respeito.

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