A marcha da desindustrialização

Décadas de esforço para industrializar o País estão sendo perdidas, mas o poder federal parece ignorar esse retrocesso

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 03h00

Com 9 tombos em 12 meses, a produção industrial chegou em janeiro a um patamar 3,5% inferior ao do mês anterior à pandemia, fevereiro de 2020. Vinte das 26 atividades pesquisadas tiveram desempenho bem inferior ao de dezembro, levando o setor a uma queda conjunta de 2,4%. Houve resultados negativos em todas as grandes categorias econômicas, com recuos de 5,6% em bens de capital, de 1,9% em bens intermediários e de 2,5% em bens de consumo. As maiores baixas, de 11,5% no mês e de 25,8% em relação a janeiro do ano passado, ocorreram na fabricação de bens de consumo duráveis, como veículos, calçados e produtos eletrônicos.

O retrocesso industrial continua. Enquanto isso, o poder central se ocupa de outros assuntos, como os objetivos pessoais do presidente Jair Bolsonaro e os interesses típicos do Centrão, indicados, por exemplo, pelo Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões incluído no Orçamento Federal. Nenhum gesto do ministro da Economia, Paulo Guedes, indica uma percepção efetiva dos grandes problemas do setor produtivo.

Não há como levar a sério meras promessas ou simples anúncios de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), quando o País precisa de iniciativas muito mais sérias e consequentes, como a definição de metas econômicas, a identificação de problemas e o planejamento de ações transformadoras.

No ano passado a produção industrial foi 3,9% maior que a do ano anterior. A expansão ficou em 3,1% nos 12 meses terminados em janeiro deste ano. Foi um ritmo insuficiente para compensar as quedas de 1,1% em 2019 e de 4,5% em 2020. Mas o desmonte do setor industrial tem uma história mais longa. Em janeiro, a produção da indústria geral foi 19,8% inferior à de maio de 2011, pico da série estatística. No caso da indústria de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, a diferença ficou em 27,7%.

Bens de capital são destinados à ampliação e à modernização das atividades produtivas em todos os setores – agropecuária, pesca, mineração, serviços, infraestrutura e indústria de transformação. A demanda nacional desses bens foi em parte suprida por importações, mas o quadro geral, bem conhecido, é de um nível insuficiente de investimentos em capacidade produtiva. Isso se reflete no baixo ritmo de crescimento econômico nos últimos dez anos e no baixo potencial de expansão hoje observado. A situação da indústria de bens de capital é parte desse quadro.

O cenário é mais feio quando se trata de bens de consumo duráveis, como veículos, móveis, televisores e equipamentos domésticos. Parte dos problemas pode ser atribuída a fatos conjunturais, como a escassez de insumos.

Mas a produção daqueles bens duráveis ficou em janeiro 47% abaixo do topo da série, em junho de 2013. A explicação, nesse caso, envolve questões muito mais graves, como o empobrecimento dos consumidores e entraves cada vez maiores à atividade industrial.

A recuperação da indústria seria objetivo prioritário de um governo de verdade, se houvesse algo desse tipo em Brasília.

 

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