A matemática e os vestibulares

Ao mudar prova para seleção de 2022, Unicamp mostrou ter consciência do problema

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 03h00

As perdas do nível de aprendizagem esperado para os alunos da última série do ensino médio, especialmente em matemática, por causa das dificuldades decorrentes do fechamento das escolas durante a pandemia, trouxeram problemas graves para o próximo vestibular das universidades públicas. De que modo elas podem exigir dos vestibulandos conhecimentos que não tiveram condições de aprender?

Uma das instituições que estão enfrentando esse problema é a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cujas inscrições para o processo seletivo de 2022 acabam de ser abertas. Ao todo, serão oferecidas 2.540 vagas em 69 cursos. Após constatar que os candidatos ao vestibular de 2021 não haviam conseguido aprender todo o conteúdo da disciplina de matemática do ensino médio, a instituição adotou duas decisões. Mudou a prova dessa disciplina para os candidatos aos cursos de graduação em ciências humanas e reduziu o número de questões de 90 para 72.

Ao justificar essas decisões, o diretor da Comissão Permanente para Vestibulares da Unicamp, professor José Alves Freitas Neto, que também coordena o curso de graduação em história da instituição, afirmou que os problemas causados pela pandemia desmotivaram os concluintes do ensino médio e comprometeram a capacidade de planejar seu futuro. Por isso, muitos desistiram de ingressar numa faculdade, o que foi evidenciado pela queda significativa do número de participantes do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que é a principal porta de entrada das universidades federais e de muitas universidades confessionais ou privadas. No vestibular de 2021, a própria Unicamp já havia registrado a abstenção de 13,8% dos inscritos na primeira fase do processo seletivo – a maior taxa nos últimos 18 anos. Também constatou que, no mesmo vestibular, as notas de matemática foram as que mais baixaram, quando comparadas com as notas dos vestibulares anteriores. 

O maior desafio é mobilizar e engajar esses estudantes, que passaram dois dos três anos do ensino médio assistindo a aulas pelo sistema de ensino a distância, afirma o professor Freitas Neto. No ano passado, 80% dos alunos da rede pública do ensino médio do Estado de São Paulo não conseguiram passar mais do que duas horas assistindo a aulas por computador, tablet ou celular. O mesmo problema detectado pela Unicamp vem ocorrendo em outras universidades, mas elas ainda não anunciaram as mudanças que poderão promover em seus processos seletivos. 

A matemática não é apenas uma ferramenta para desenvolver o raciocínio e habilidades cognitivas. É, também, decisiva para estimular a reflexão abstrata, o potencial crítico, a criatividade e a capacidade de argumentação dos alunos. Isso mostra o impacto da perda do nível de aprendizado dessa disciplina na formação das novas gerações. 

Antes da pandemia e da substituição das aulas presenciais por aulas virtuais, o aproveitamento dos alunos do ensino básico em matemática já era insatisfatório, como apontam os mecanismos nacionais de avaliação escolar e o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), promovido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os últimos números do Pisa revelaram que dois terços dos estudantes brasileiros na faixa etária de 15 anos apresentaram níveis de proficiência em matemática muito mais baixos do que os considerados básicos pela entidade.

O agravamento do problema de aprendizagem da matemática terá consequências dramáticas. Entre outras consequências, limitará o acesso das novas gerações a empregos qualificados. Também impedirá a formação de capital humano de que o País tanto precisa para se desenvolver e passar a níveis mais sofisticados de produção. E ainda perpetuará as condições do atraso, da desigualdade e da pobreza na sociedade brasileira. 

Ao mudar a prova de matemática para não prejudicar os candidatos aos cursos de ciências humanas em seu próximo vestibular, a Unicamp mostrou ter consciência da gravidade desse problema. Resta solvê-lo. 

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