A melhora do mercado de trabalho

A Pnad Contínua mostra uma tendência de recuperação da qualidade do emprego

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2020 | 03h00

Embora lenta, a recuperação do mercado de trabalho brasileiro é generalizada e mostra gradual melhora da qualidade dos novos empregos. Mas ainda são preocupantes os dados referentes a desemprego, subocupação e desalento. E os principais indicadores do mercado de trabalho continuam muito piores do que os de 2014, quando os resultados foram, em geral, os melhores da série estatística elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No trimestre encerrado em dezembro, ainda havia 11,632 milhões de pessoas em busca de emprego, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua referente ao trimestre móvel outubro-dezembro de 2019. É um número muito alto, que corresponde à taxa de desocupação de 11,0%. Mas indica que, entre o final de 2018 e de 2019, o total de pessoas desempregadas diminuiu em 520 mil, ou uma redução de 4,3%.

A situação do mercado de trabalho, como mostram esses números, está longe de ser tranquilizadora. Se ao número de desocupados somarmos os referentes à precariedade do trabalho de outras pessoas, o quadro se tornará ainda mais sombrio. No fim do ano passado, havia aproximadamente 26,2 milhões de pessoas subutilizadas (essa classificação inclui as pessoas desocupadas ou subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas e as que compõem a força de trabalho potencial).

O contingente de pessoas desalentadas – que não haviam buscado emprego por considerarem que não encontrariam ocupação adequada ou para a qual não tinham experiência, ou por serem muito jovens ou velhos demais, entre outros fatores – somou 4,6 milhões de pessoas no último trimestre do ano passado. É um resultado muito próximo do observado em igual período de 2018.

Além das pequenas melhoras em relação aos dados do ano anterior, a Pnad Contínua do último trimestre de 2019 mostra também uma tendência de recuperação da qualidade do emprego. É uma recuperação lenta, como vem sendo a da economia em geral, mas que mostra alguma resistência. O número de contratados subiu 2,0% na comparação com o último trimestre de 2018, o que elevou para 94,552 milhões o total de pessoas trabalhando, um número recorde na série do IBGE.

O economista Daniel Duque, analista de mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), observa que a Pnad Contínua do último trimestre de 2019 mostrou uma evolução animadora em termos de formalização do mercado. O número de vagas de empregados do setor privado com carteira assinada, de trabalhadores domésticos com carteira, de trabalhadores do setor público e de empregadores e trabalhadores por conta própria com CNPJ aumentou 1,15 milhão no período. Já o aumento no mercado informal – sem garantias e proteções legais – foi de 663 mil vagas. Ambos os mercados crescem, mas o formal vem abrindo mais postos do que o informal, confirmando a tendência já mostrada pelos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia.

O comércio foi o setor que mais gerou emprego no último trimestre de 2019. É um período normalmente de aumento de contratações, por causa das vendas de fim de ano. Mas o aumento do número de contratados foi observado em quase todos os setores, o que mostra a extensão da recuperação do mercado de trabalho. Especialistas nesse mercado preveem que a construção, os serviços e o comércio puxarão a recuperação do emprego ao longo de 2020.

É um tanto decepcionante a evolução do rendimento real médio do trabalhador, que aumentou apenas 0,4% em um ano.

Ao resumir a situação, a analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy, observou: “Está melhorando? Está. Mas o retrospecto ainda é muito desfavorável”. Falta muito para chegar aos resultados observados cinco anos antes.

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