A mensagem do eleitorado

No Chile, negação da política leva independentes a serem maioria na Constituinte

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 03h00

O resultado da eleição que definiu os 155 membros da Convenção Constitucional do Chile não deixa dúvida: a política foi a grande derrotada, ao menos a política dita tradicional. “Nestas eleições, os cidadãos enviaram uma clara e forte mensagem ao governo e às forças políticas tradicionais: não estamos sintonizados com as demandas e os desejos dos cidadãos e estamos sendo interpelados por novas expressões e por novas lideranças”, disse o presidente Sebastián Piñera, pouco após a divulgação do resultado da apuração.

Nestes tempos estranhos, é de reconhecer o espírito democrático e o olhar realista de Piñera sobre o deslinde do pleito. Não é exagero dizer que o próprio presidente foi um dos grandes derrotados nesta eleição, se não o maior. Os candidatos conservadores e de centro-direita da frente Vamos por Chile, apoiados por seu governo, obtiveram apenas 37 cadeiras na Assembleia Constituinte que será responsável por redigir, em um ano, a nova Constituição do país, em substituição à atual Carta Magna, promulgada em 1980, ainda sob a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Com menos de um terço dos membros do colegiado, os conservadores e a centro-direita não terão condições de evitar quaisquer mudanças mais significativas no texto constitucional, em especial no que concerne à reestatização de serviços públicos que foram privatizados sob a vigência da Carta de 1980. Não surpreende, portanto, que no dia seguinte à eleição a Bolsa de Santiago tenha registrado queda de 9,3% e o peso chileno tenha perdido 2,1% do seu valor em relação ao dólar. É o receio do chamado mercado quanto aos riscos da irresponsabilidade fiscal que surge no horizonte.

O resultado da eleição no fim de semana passado é reflexo das manifestações havidas no Chile em 2019, quando milhares de cidadãos, notadamente estudantes, foram às ruas para protestar, inicialmente, contra um aumento de 30 pesos chilenos na tarifa do metrô. A agenda de reivindicações logo se expandiu e envolveu outros setores da sociedade chilena, como sói acontecer em uma região marcada por profundas desigualdades políticas e econômicas, chegando, ao final, aos violentos protestos que reuniram cerca de 1 milhão de pessoas contra a chamada “classe política”, clamando por uma nova Constituição.

Os candidatos ditos independentes, ou seja, sem vinculação com os partidos políticos tradicionais, foram os grandes vitoriosos na eleição e comporão a maioria da Constituinte, com nada menos do que 65 das 155 cadeiras. É um grupo heterogêneo, formado por acadêmicos, artistas, profissionais liberais, estudantes e ativistas políticos sem qualquer vinculação partidária formal e tampouco unicidade de propósitos.

A esquerda, formada pela Frente Ampla e pelo Partido Comunista Chileno, obteve 28 cadeiras na Assembleia Constituinte. Já a centro-esquerda, com candidatos da Concertacíon que governou o país por duas décadas após o fim da ditadura, conquistou 25 cadeiras.

Os independentes venceram de forma avassaladora porque foram muito hábeis em dialogar com setores da sociedade descontentes com os chamados políticos tradicionais, compreendendo melhor os seus anseios e oferecendo-lhes respostas que a política partidária não foi capaz de dar. O Brasil foi seduzido por este discurso personalista, antipolítica, que, em geral, oferece soluções simples e facilmente assimiláveis para os problemas sociais, mas não necessariamente as corretas.

Partidos políticos são fundamentais em qualquer democracia, pois, em linhas gerais, têm a função de organizar a miríade de interesses da sociedade. À falta deles, ainda que não do ponto de vista formal, mas de seu enfraquecimento, abre-se uma larga avenida para aventureiros. Aqui estão os brasileiros, pagando dia sim e outro também por esta malévola negação da política.

Não se sabe, evidentemente, qual será o produto da Assembleia Constituinte. Tanto menos gravoso para a sociedade chilena ele será, agora ou no futuro, se o diálogo entre políticos e sociedade, que faltou nos últimos anos, prevalecer no curso dos debates entre as forças sociais representadas no colegiado.

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