A missão do Brasil no Líbano

País contribui para a pacificação política libanesa, além da ajuda humanitária

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2020 | 03h00

Logo após a terrível explosão do porto de Beirute, no dia 4 de agosto, o governo brasileiro agiu corretamente ao designar uma missão de ajuda humanitária ao Líbano a fim de prestar solidariedade a uma nação amiga que acabara de vivenciar sua maior tragédia em tempos de paz. A explosão provocou mais de 200 mortes, deixou 6 mil feridos e cerca de 300 mil desabrigados, além de incalculáveis danos materiais.

Ao lado da França, o Brasil é o país que tem os mais sólidos vínculos com o Líbano. Aqui vivem cerca de 14 milhões de nativos ou descendentes de libaneses, e muitos deles têm contribuído para o enriquecimento econômico e cultural do País.

A um desses descendentes, o ex-presidente Michel Temer, coube chefiar a missão humanitária, por designação do presidente Jair Bolsonaro. Entre os dias 12 e 15 passados, Temer esteve no Líbano para levar seis toneladas de alimentos, medicamentos e insumos básicos de saúde, como ataduras, máscaras cirúrgicas, seringas e ventiladores pulmonares, entre outros. Além disso, quatro toneladas de arroz seguiram de navio até o país. A explosão do porto de Beirute destruiu armazéns onde estavam estocados milhares de toneladas de grãos, o que colocou em alto risco a segurança alimentar da população libanesa.

O Brasil também contribuiu para o esforço de resgate da cidade ao enviar para Beirute uma equipe de especialistas em incêndios e explosões. De acordo com o planejamento da missão, eles permanecerão na capital libanesa até o fim deste mês auxiliando as autoridades locais na condução das investigações das causas do acidente e na prevenção de novos focos de incêndio. A este grupo de peritos também caberá mapear outras frentes nas quais esforços brasileiros poderão ser úteis.

Outro importante papel da missão brasileira foi atuar na mediação das negociações que envolvem as diferentes forças políticas libanesas. O exercício do poder no Líbano é sustentado por um complexo arranjo entre os cristãos maronitas e muçulmanos xiitas e sunitas. E dentro desses grupos há outras ramificações que se refletem na composição do Parlamento. A presidência da República é sempre ocupada por um cristão; a chefia de governo, por um muçulmano sunita; e a presidência do Parlamento, por um muçulmano xiita.

Durante sua breve passagem pela capital libanesa, Temer se reuniu com o presidente Michel Aoun. Na embaixada brasileira em Beirute, recebeu os chefes maronita, sunita, xiita e druso. O ex-presidente brasileiro também se reuniu com o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, e com o primeiro-ministro interino Hassan Diab, que anunciou sua renúncia no dia 11 passado após quatro membros do gabinete terem oficializado a saída do governo em atendimento, segundo eles, aos clamores da população por renovação na política local.

A explosão do porto de Beirute trouxe a reboque uma séria crise política desencadeada pela revolta da população libanesa por anos de corrupção, malversação de recursos públicos e descaso do governo diante de suas necessidades mais prementes. A tragédia se soma a uma crise econômica que há mais ou menos dois anos corrói a renda dos libaneses. Não surpreende que a maioria dos moradores da capital libanesa atribui justamente à negligência do governo a responsabilidade pela tragédia. Afinal, como explicar à população o armazenamento de quase 3 mil toneladas de nitrato de amônio durante seis anos e sob condições de segurança absolutamente inadequadas?

Resta a torcida para que os esforços diplomáticos do Brasil, ao lado da França, da Rússia e dos Estados Unidos, ajudem no processo de concertação política no Líbano e levem à formação de um governo que esteja à altura do desafio de reconstrução da capital do país e, sobretudo, do resgate da confiança dos libaneses na boa política como única forma de conciliação dos múltiplos interesses em jogo.

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