A necessária voz da academia

Universidade indiferente à política não seria universidade

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 03h00

Não cabe à academia ser feudo de grupos político-partidários, o que infelizmente já ocorreu, no passado, em alguns espaços universitários. Mas a academia é e deve ser sempre espaço de debate político. E essa afirmação não tem rigorosamente nenhum caráter controvertido. Ela é consequência necessária da própria essência da universidade, que é ser um espaço livre de estudo, pensamento e pesquisa.

Sem liberdade, não pode haver verdadeiro estudo, pensamento ou pesquisa. E nenhum desses três aspectos da academia pode existir sem uma profunda conexão com a realidade. Em outras palavras, uma universidade indiferente à política e aos rumos do País teria deixado de ser universidade. Teria abdicado de sua identidade.

Por isso, a academia, necessariamente aberta e plural, não pode ficar alheia à escalada de ameaças e afrontas à Constituição e às instituições por parte do presidente Jair Bolsonaro. Essa participação cívica não tem nenhuma relação com ser de esquerda, centro ou direita, progressista ou conservador. Tem a ver com a preservação de um bem maior: a liberdade. Toda universidade deve compreender e estimular a diversidade, acolhendo as várias linhas ideológicas. O envolvimento da academia com a vida política do País – especialmente em momentos como o atual, em que o presidente da República faz contínuas provocações contra o Estado Democrático de Direito – é, repita-se, corolário de sua própria missão, como espaço de liberdade.

Nessa abertura à política e aos acontecimentos políticos, a academia tem a dar ao País uma contribuição decisiva, ajudando a identificar com acuidade os fenômenos, a relacionar suas diferentes causas e a alertar para suas consequências. Com sua pluralidade de visões e paradigmas teóricos, a universidade deve contribuir para que a sociedade tenha um olhar mais profundo sobre o tempo presente. O rigor científico nada tem a ver com aprisionar a academia no mundo pretérito. Isso significaria privar o contemporâneo daquilo que justamente pode ajudar a desvelar o seu sentido, seria privá-lo do contato com esse espaço livre de estudo, pensamento e pesquisa, que é a academia.

Os autoritários, seja qual for a cor de sua bandeira ideológica, sempre perseguem e tolhem a academia. Quando a universidade cumpre o seu papel de diálogo, debate e pesquisa – cujos resultados sempre iluminam as muitas facetas da realidade –, é muito mais difícil implementar os intentos liberticidas.

Mas a contribuição da academia à política do País não se resume a olhar o presente. O seu compromisso é também com o futuro. Enquanto espaço livre de estudo, pensamento e pesquisa, a universidade deve debater e propor soluções para os problemas nacionais. Basta ver, por exemplo, como o debate sobre política econômica, no mundo inteiro, é profundamente moldado pelas escolas econômicas nascidas na academia. Ao realizar sua missão acadêmica, a universidade está necessariamente envolvida com a construção do futuro.

Por isso, não pode haver omissões ou negligências da academia diante de ameaças que podem ter consequências muito além da geração atual. A história é abundante em exemplos nesse sentido. Com a liberdade, a democracia e o Estado Democrático de Direito não se brinca.

Em tempos de desinformação, quando se distorce e manipula a realidade e se abusa das fake news, é ainda mais fundamental o papel da ciência, produzida na academia. Sem o mundo intelectual atento ao desenrolar dos fatos e acontecimentos políticos, uma sociedade estaria à mercê dos que fazem pouco-caso da inteligência e da liberdade alheia.

As ciências humanas têm uma proximidade conatural com o fenômeno político. Com a política sendo muitas vezes o seu imediato objeto de estudo, professores e alunos dessas áreas têm, a partir de sua própria ciência, muito a dizer neste momento. A academia não pode ter áreas fechadas ao mundo, alheias à política. A pandemia da covid-19 evidencia o muito que a ciência pode e deve contribuir com a política.

Ancorada em sua ciência, a academia tem muito a dizer sobre as ameaças e afrontas do presidente Bolsonaro. A universidade é esteio de liberdade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.