A necessária voz dos empresários

Ela pode ser decisiva no enfrentamento da escalada de ameaças e afrontas à Constituição

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 03h00

É enorme o desafio dos empresários diante da pandemia do novo coronavírus. Nos últimos dois meses, o cenário econômico mudou completamente, e não foi apenas em relação ao curto prazo. Além das dificuldades presentes, tem-se à frente um longo horizonte de obstáculos e incertezas, a suscitar muitas preocupações no empresariado.

Além da pandemia, há outra circunstância a exigir, neste momento, atenção especial dos empresários - a escalada de ameaças e afrontas à Constituição e às instituições pelo presidente Jair Bolsonaro. Não há dúvida de que é completamente desumano ter de enfrentar, ao mesmo tempo, essas duas crises, a da covid-19 e a instaurada por Jair Bolsonaro. Mas, a despeito de toda perplexidade quanto à irresponsabilidade do presidente, o fato é que as duas crises são reais e ambas têm potencial de provocar enormes estragos.

Alguns têm a impressão de que pouco se pode fazer para remediar a destemperança do presidente Bolsonaro. Segundo essa lógica, o melhor que cada empresário poderia fazer agora é dedicar-se aos seus negócios. Ainda que atraente, o raciocínio é equivocado. O momento exige a participação de todos, também dos empresários, na busca de solução para a crise nacional.

Em primeiro lugar, a crise político-institucional afeta diretamente a retomada da economia. Cuidar de uma crise e descuidar da outra é dar margem para a permanência das duas, a econômica e a política. São muitas as evidências que apontam para a correlação entre um adequado funcionamento das instituições, dentro da lei, e o desenvolvimento econômico. Não há possibilidade de um dinâmico ambiente de negócios sem segurança jurídica ou estabilidade institucional.

Mas talvez o principal óbice para a participação dos empresários seja a ideia de que pouco podem contribuir na seara político-institucional. Trata-se de um engano. A classe empresarial pode ser decisiva no enfrentamento da escalada de ameaças e afrontas à Constituição que partem do presidente Jair Bolsonaro. O tema merece reflexão.

No estudo de trajetórias autoritárias em diferentes países, é comum constatar a ausência de um empresariado capaz de se opor aos objetivos liberticidas dos golpistas de plantão. Em relação à Venezuela, por exemplo, é recorrente a constatação de que porcentual expressivo da atividade econômica (setor do petróleo, principalmente) estava sob domínio estatal. Tivesse a iniciativa privada uma maior participação no PIB venezuelano, certamente Hugo Chávez enfrentaria maior resistência ao realizar seus planos ou até mesmo seu intento teria fracassado.

Obviamente, a questão não é só assegurar um porcentual de participação da iniciativa privada na atividade econômica, como se isso impedisse por si só o avanço autoritário. É preciso que tal relevância se faça valer na vida pública. E isso se alcança fortalecendo, nos meios empresariais, o consenso em torno do Estado Democrático de Direito e manifestando, de forma clara e inequívoca, a necessidade de respeitar a Constituição.

A voz dos empresários tem profunda ressonância na vida política e institucional do País. O regime democrático coloca os candidatos eleitos em situações de especial poder e visibilidade. Tenham ou não condições de exercer a contento a função, os detentores de cargos políticos são investidos de grande poder. Por um período determinado, o voto, no regime democrático, alça algumas pessoas a uma situação de destaque. Ao mesmo tempo, é imprescindível que elas estejam conscientes dos limites do cargo que postulam ou ocupam. Podem muito, mas não podem tudo - e aqui a voz do empresariado pode fazer diferença, ao lembrar que há limites. Por maiores que sejam suas limitações cognitivas, um presidente da República não toma certas liberdades quando sabe que a classe empresarial não tolera abusos contra as instituições e disso faz saber a opinião pública.

Diante das atitudes do presidente Bolsonaro, não é difícil perceber a necessidade de que a voz dos empresários se faça ouvir. Ao contrário do que muitas vezes o marxismo difundiu, não há desenvolvimento econômico, social e institucional de um país sem a participação responsável do empresariado. Assim se constrói o Brasil, cada um exercendo seus deveres cívicos.

 

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