A ONU e a opinião pública global

Vale a pena ouvir a voz do povo refletida em pesquisa feita pela Organização

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 03h00

A Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) deste ano marca o 75.º aniversário da Organização. Sintomaticamente, a sua sede está vazia. Os líderes farão seus discursos virtualmente. Por outro lado, o secretário-geral, António Guterres, aproveitou o momento para uma “conversa global”, ativando em abril a maior e mais diversa pesquisa de opinião mundial sobre as prioridades pós-covid, apresentada no relatório O futuro que queremos, as Nações Unidas de que precisamos.

Entre as prioridades imediatas, a maioria de mais de 1 milhão de entrevistados listou o acesso a serviços básicos: saúde, água e saneamento e educação. A segunda prioridade é mais solidariedade internacional e apoio aos lugares mais impactados pela pandemia.

A médio prazo, os entrevistados confiam que o acesso aos serviços básicos melhorará. Por outro lado, há grande ansiedade em relação às mudanças climáticas e à habilidade da comunidade global de enfrentá-las. Outras áreas de apreensão são a pobreza, a corrupção, o respeito aos direitos humanos, a violência e o desemprego.

Um dado curioso, mas promissor, é que os jovens e as populações dos países em desenvolvimento tendem a ser mais otimistas que os mais velhos e habitantes de países desenvolvidos. Para enfrentar os desafios, 87% acreditam que a cooperação internacional é vital e 74% acreditam que a ONU será “essencial” neste processo. Contudo, apenas 60% creem que em seus 75 anos a ONU conseguiu fazer do mundo um lugar melhor. Só 30% acham que ela está contribuindo “muito” para o avanço em desafios-chave e para 50% ela está contribuindo “de alguma forma”.

A grande maioria aponta a necessidade de uma ONU mais capaz de incluir a sociedade civil, mulheres, jovens, vulneráveis, autoridades regionais, negócios e outras organizações internacionais. De imediato, clama-se por mais prestação de contas, transparência, imparcialidade e comunicação e engajamento com as comunidades locais.

A enquete revela uma realidade paradoxal. Por um lado, a população mundial parece, como diz a ONU, “extraordinariamente unida” em sua visão do futuro. Por outro lado, “mesmo antes do choque da pandemia, o mundo enfrentava o paradoxo da diminuição da cooperação global contra o cenário do aumento dos desafios globais: a crise climática e as ameaças de armas nucleares; mudanças populacionais e a esfera digital; crescentes tensões geopolíticas e novas formas e padrões de violência; e desigualdades cada vez mais profundas com crescente inquietação social”.

A declaração oficial a ser submetida à aprovação da Assembleia dá especial atenção a um “multilateralismo revigorado”, particularmente em razão da pandemia. Mas desde a crise financeira de 2008 e a ascensão dos populismos o que se tem visto é, ao contrário, um nacionalismo revigorado.

Esse estado de coisas clama por uma reforma na própria ONU. A verdade é que suas estruturas mudaram pouco e ainda refletem o mundo de 1945. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que no Conselho de Segurança. O Conselho inclui apenas 8% dos membros da Assembleia. Os cinco membros permanentes com direito a veto são os mesmos que triunfaram na 2.ª Guerra, e não há representantes da América Latina, África ou Sul da Ásia.

Todos concordam que há um declínio em sua credibilidade, mas há pouco consenso sobre como resgatá-la. A posição mais avançada até o momento, mas nem um pouco realista, é a da inclusão de Brasil, Alemanha, Índia e Japão entre os permanentes. Ainda assim, a África continuaria de fora. Por sua vez, um outro grupo de 12 países advoga que a reforma deve começar pela expansão dos membros não permanentes. Qualquer mudança exigirá a aprovação de dois terços da Assembleia e dos membros permanentes.

A declaração deste ano fala em “instilar nova vida nas discussões sobre a reforma do Conselho”, mas a curto prazo é difícil ver como se irá além das discussões. Enquanto isso, vale a pena ouvir a voz do povo refletida na pesquisa: mais transparência, prestação de contas e imparcialidade por parte do Conselho seria um bom começo.

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