A oportunidade da América Latina

Mais afetada pela pandemia, que acentuou seu atraso, a região pode mudar sua trajetória. Só depende dela mesma

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 03h00

A pandemia foi e está sendo particularmente dura com a América Latina. O índice de mortos por covid-19, em grande parte por causa do Brasil, é um dos mais altos do mundo. Também o impacto econômico da pandemia foi mais forte na região do que no resto do mundo. A economia latino-americana encolheu 7% no ano passado, mais do que a mundial – e a recuperação em 2021 é mais lenta na região, com o Brasil, novamente, contribuindo de maneira intensa para isso. E 2022 não será um ano muito melhor. Até a democracia parece fraquejar em algumas partes da região.

Não faz muito tempo, a América Latina conseguia crescer em ritmo mais intenso do que boa parte dos países desenvolvidos. Mas dados recentes, relativos a práticas econômicas retrógradas na maior parte dos países – e o Brasil é sempre lembrado –, levam a perguntar se o tempo está acabando para a região. É a questão que levanta a revista The Economist, em densa reportagem reproduzida pelo Estado (27/10).

O tempo pode, mesmo, estar acabando, se tudo continuar como tem sido nos últimos anos. Mas pode haver oportunidade de mudar essa trajetória de atraso, e a revista sugere que este pode ser o momento.

Começar a recuperar o que se perdeu exige mudar de maneira substancial o que a maioria desses países vem fazendo em áreas vitais para o crescimento, sobretudo na integração com o resto do mundo. Trata-se de buscar a ampliação das trocas comerciais, a inserção na cadeia global de suprimento e produção e a absorção de tecnologia, tudo tendo em vista o crescimento das economias nacionais. É preciso também formar profissionais capazes de enfrentar os desafios que as transformações da economia mundial impõem.

Não será tarefa fácil em países cujos governos se acostumaram a protelar soluções para problemas estruturais. O que a revista inglesa mostra é o resultado dessa atitude complacente, geralmente tolerada pela população.

A precária infraestrutura logística talvez seja a representação física mais notável das consequências dessa complacência. A falta de meios de transportes que estimulem a produção e o comércio é notória em boa parte da região. O sistema portuário, com poucas exceções, beira a obsolescência, o que atrasa e encarece o transporte de bens, especialmente os de exportação.

Além da deficiência da infraestrutura, esses países pouco fizeram para criar os instrumentos necessários à ampliação das trocas comerciais. Em média, todos são muito fechados às importações – e o Brasil é novamente lembrado como um exemplo óbvio.

Curiosamente, governos latino-americanos fecharam 450 acordos bilaterais desde 1973, segundo a revista. Parece uma indicação de maior integração comercial com o resto do mundo. Mas 370 desses acordos foram com países da região, não com países desenvolvidos, dos quais os latino-americanos poderiam obter tecnologia mais avançada.

E mesmo tendo voltado a maioria dos acordos para países da região, os latino-americanos não conseguiram formar cadeias interligadas de fornecimento na região, o que, pela proximidade, poderia dar-lhes ganhos de eficiência. Continuam isolados do ponto de vista produtivo. E a América Latina continua a ser uma das regiões comercialmente mais inacessíveis do planeta.

Citado como obstáculo ao acordo Mercosul-União Europeia por sua atitude agressiva em relação aos países europeus que condenam sua política ambiental, especialmente por causa de sua pusilanimidade na questão do desmatamento da Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro é lembrado como exemplo de governante que contribui para o isolamento da região. Poderia ser lembrado por muitas outras atitudes retrógradas.

A excessiva dependência econômica da América Latina da China pode, agora, tornar-se elemento de vantagem no seu relacionamento com os Estados Unidos. A necessidade do governo do presidente Joe Biden de fortalecer seus vínculos com a região, para enfraquecer a influência da China, pode ser a oportunidade para os países da América Latina negociarem com Washington mais apoio para seu crescimento e modernização. É o momento de que fala The Economist.

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