A oposição sem o PT

A independência da oposição de esquerda no País em relação ao PT e a Lula ganhou até mesmo um slogan: 'O Lula está preso, babaca!'

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2019 | 03h00

O PT, com 56 deputados e 6 senadores, ainda é o maior partido de oposição, mas passou os últimos tempos concentrado apenas em defender seu encalacrado líder, Lula da Silva. Com isso, deixou de exercer o papel político que lhe cabia, de liderar, de forma prudente e objetiva, a oposição ao governo. A irresponsabilidade petista acabou atrasando a formação de um bloco oposicionista atuante e coeso, condição indispensável para o funcionamento da democracia – afinal, é muito difícil que haja um bom governo sem a existência de uma oposição digna do nome, capaz de fiscalizar os projetos do Executivo e produzir alternativas.

Esse cenário, contudo, começa a mudar. Os partidos que tradicionalmente orbitavam o PT, numa relação de vassalagem com Lula da Silva, estão há algum tempo organizando-se para atuar sem depender dos petistas e, principalmente, sem se submeter às manias do demiurgo de Garanhuns.

A independência da oposição de esquerda no País em relação ao PT e a Lula ganhou até mesmo um slogan: “O Lula está preso, babaca!”.

Tão grosseira quanto certeira, a frase, dita pelo senador Cid Gomes (PDT-CE) durante evento da campanha eleitoral do ano passado, para enquadrar petistas irascíveis que julgavam poder ditar os rumos da esquerda na disputa, foi repetida recentemente por Ciro Gomes, irmão de Cid e candidato derrotado à Presidência.

Num encontro da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Salvador, no dia 6 passado, Ciro Gomes foi vaiado quando começou a criticar o PT. “Tem coisa mais chata que jovem estar num bar defendendo corrupto? Imagina um jovem num bar agora obrigado a defender corrupção, ladroeira, aparelhamento do Estado, fisiologia, formação de quadrilha. Isso não é para vocês, vocês não têm nada a ver com isso”, discursou Ciro, em óbvia referência aos governos petistas, protagonistas de escândalos de corrupção, e a Lula da Silva, corrupto condenado em dois processos e que está na cadeia desde abril do ano passado. Diante da hostilidade crescente dos estudantes petistas, que gritavam “Lula livre”, Ciro lembrou, também aos gritos, que “o Lula está preso, babaca!”, e criticou a estratégia do PT de mobilizar todas as suas energias em defesa do ex-presidente: “Fomos humilhantemente derrotados por essa estratégia. Insistir nela afunda o Brasil”.

O discurso de Ciro Gomes ocorreu no mesmo dia em que Lula da Silva estava sendo condenado pela segunda vez por corrupção e lavagem de dinheiro. A nova sentença, de 12 anos e 11 meses de cadeia, desmoralizou de vez a retórica segundo a qual o chefão petista é vítima de “perseguição política”. Assim, a despeito dos arreganhos petistas, parece cada vez mais claro que Lula está mesmo fora do jogo, o que abre caminho para novas lideranças e composições no campo da oposição.

Apesar do esforço de Ciro Gomes, esse espaço ainda está por ser preenchido. Enquanto a oposição luta para definir seu formato e seus líderes, o governo do presidente Jair Bolsonaro, a despeito de sua evidente fragilidade na articulação política, segue sozinho no jogo. Seus únicos problemas se resumem por ora à ausência do presidente, internado para se recuperar de uma cirurgia, e aos dissabores causados por fogo amigo – nomeadamente os erros cometidos por ministros claramente desqualificados para o cargo que ocupam e os rolos mal explicados envolvendo um dos filhos do presidente.

No momento em que o governo apresenta projetos de grande impacto para o País, como a reforma da Previdência e o pacote de combate ao crime, é notável – e lamentável – o silêncio da oposição. O único ruído, por enquanto, ainda é o dos petistas a defender seu líder corrupto, a atacar as instituições e a questionar a legitimidade do presidente Bolsonaro.

Por maior que seja o confronto político, a democracia estará saudável se, em primeiro lugar, governo e oposição se reconhecerem mutuamente. Com o PT na oposição isso é virtualmente impossível, razão pela qual seu alijamento por parte de seus antigos satélites, se vier mesmo a acontecer, é uma boa notícia.

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