A oscilação da indústria

Produção industrial fechou um semestre de vários tombos e de lenta recuperação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 03h00

Com novo tropeço em junho, a indústria fechou um semestre de estagnação, conseguindo apenas manter-se no patamar de fevereiro de 2020, anterior ao choque da pandemia. Este ano começou com modesto crescimento em janeiro, quando a produção aumentou 0,2%. Quem se animou logo enfrentou uma decepção, porque em seguida vieram três meses de desempenho negativo. Depois dessa nova queda, quando o setor afundou 4,7%, houve um ganho de 1,4% em maio, mas no mês seguinte o avanço foi nulo. Números melhores aparecem quando os confrontos envolvem prazos pouco mais longos: subida de 12,9% em relação à primeira metade de 2020 e de 6,6% em 12 meses sobre o período anterior, mas as bases de comparação, nesses casos, são muito baixas.

Sequelas da crise sentidas em todo o mundo explicam, em parte, a fraqueza da indústria. A escassez de insumos, como certos componentes eletrônicos, tem dificultado a atividade e elevado custos. Do lado da demanda, como lembra o economista André Macedo, gerente da pesquisa industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é preciso levar em conta o desemprego ainda alto e a redução da massa de salários. Fatores ocasionais, como a redução da safra de alguns produtos agrícolas, como o açúcar, também se incluem nas explicações. Mas os dados da indústria se encaixam no quadro mais amplo de uma reativação econômica ainda insegura, embora o ministro da Economia, Paulo Guedes, insista em falar de uma recuperação em V.

Em junho, a produção diminuiu em três das quatro grandes categorias econômicas e em 14 dos 26 ramos cobertos pela pesquisa. Houve recuo mensal em bens intermediários (-0,6%), bens de consumo duráveis (-0,6%) e em bens de consumo semiduráveis e não duráveis (-1,3%). O único aumento (+1,4%) ocorreu em bens de capital.

A oscilação observada mês a mês em cada segmento industrial pode ser explicada por vários fatores, mas é preciso atribuir importância especial ao ritmo do consumo, ainda lento. Depois de crescer 0,2% em janeiro e 1,1% em fevereiro, as vendas do comércio varejista caíram 3% em março. Aumentaram, depois, 4,9% em abril e 1,4% em maio. Mas em dezembro de 2020, é importante lembrar, as vendas haviam despencado 5,5%.

O desempenho do varejo no começo deste ano é facilmente compreensível quando se observa o mercado de trabalho, com 14,8 milhões de desocupados no trimestre móvel encerrado em abril e 34 milhões tentando sobreviver na informalidade. O ministro da Economia tenta desacreditar esses números atacando o IBGE. A agência oficial de estatísticas opera, no entanto, segundo padrões internacionais e, apesar das pressões do governo, tem preservado sua qualidade. Antes de Paulo Guedes, o presidente Jair Bolsonaro já havia procurado desqualificar o instituto. Tendo estudado estatística, o ministro se distingue do presidente pelo menos nesse aspecto. Não deixa de segui-lo, no entanto, nos valores e no comportamento político.

A indústria de bens de capital foi a única, entre as grandes categorias, a apresentar crescimento em junho. Nesse mês, a produção de máquinas e equipamentos foi 1,4% maior que em maio. No semestre, o total fabricado foi 45,6% superior ao de um ano antes. A expansão acumulada em 12 meses chegou a 20,4%. Mas também nesse caso os grandes números se explicam pela base de comparação muito baixa.

Além disso, o crescimento no ano está longe de assinalar um surto de investimento produtivo. A retomada é explicável, muito mais facilmente, pela urgência de garantir a recomposição de uma capacidade produtiva seriamente prejudicada. Dois números podem tornar mais claro esse ponto. No trimestre móvel encerrado em junho, a produção da indústria geral ficou 16,7% abaixo do pico registrado em maio de 2011. No caso dos bens de capital, a diferença foi de 25,4% em relação ao pico alcançado em setembro de 2013. No longo retrocesso da indústria, o setor de bens de produção foi, obviamente, o mais afetado. O caminho de volta terá de passar por uma séria retomada do investimento produtivo.

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